MORDOMIA CELESTIAL
Tereza Halliday
"Ela se apresentou numa noite de São João, mostrando o convite pessoal e intransferível. Salpicada de faíscas de chuvas de ouro e prata, agasalhada por xale de fumaça, cheirando a folha de eucalipto e manjericão, resplandeceu à luz da fogueira celestial. Foi sagrada membro do grupo de dançarinos da quadrilha eterna. Balancê!
Recebida por São Pedro, outro grande folião das noites de junho, onde balões e bandeirolas falam dialeto entendido por poucos. Foi levada ao banquete em sua honra - canjica nordestina autêntica- aquela delicatessen, creme de milho verde finíssimo, cuja receita verdadeira se perdeu na Terra, substituída pela produção em massa e morta pela preguiça de mexer de colher de pau o néctar amarelo clarinho, uma hora de relógio depois de levantar fervura.Serviram-lhe também o bolo de massa de mandioca, leite de coco e especiarias, chamado pé de moleque ( nada a ver com o docinho mineiro do mesmo nome).Receita especial, onde a massa vai ao forno em forma forrada com folha de bananeira.
A sagração ocorreu ao som de baiões, xotes e xaxados, que se esparramavam da sanfona, sem outra caixa de som além do próprio fole, acompanhada apenas por zabumba e triângulo. Recebeu carteira vitalícia de admissão ao forró do céu. Saciada, enfim.
Assim me contou a alma agraciada naquela noite especial. E confidenciou-me a verdade muito além das doutrinas e utopias sobre céu e inferno, na Terra ou alhures: quem não foi tocado pela magia de pelo menos uma noite de São João, vai precisar ralar muito para conseguir mordomias no descanso eterno."
( in RUA DE SANTA GATA,edições Bagaço,2014)
Tereza Lucia Halliday Levy nasceu no Recife a 19 de dezembro de 1944 e faleceu nesta cidade no dia 24 de abril de 2015.
Intelectual respeitada, pesquisadora, professora da UFRPE e UNICAP, foi jornalista, escritora e poetisa. Com vários livros publicados na área de Comunicação,escreveu belos livros para crianças e participou de várias antologias de poesia .
No livro Rua de Santa Gata ( segundo nota "na orelha"do mesmo ) "Tereza Halliday, menina, jovem, mulher e velha, misturou-se nestes textos, compartilhando sua imaginação, pensares e sentires. Presente de aniversário para leitores, quando a aniversariante é ela. Celebração da voz, silêncio, contemplação e sorriso. "
Fui uma das felizes contempladas por este livro pleno de magia poucos dias depois do seu aniversário . É dele que retiro esta significativa página, como forma de lhe prestar uma homenagem, com muito carinho e saudade.
Maria de Lourdes Hortas
quarta-feira, 6 de maio de 2015
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
sábado, 7 de fevereiro de 2015
A RESSONÂNCIA NA POESIA DE JUAREIZ CORREYA
Natural de
Palmares, Pernambuco, Juareiz Correya
nasceu em 1951, mas radicou-se no
Recife desde 1970 , onde, através da sua
editora Nordestal, publicou a revista POESIA, divulgando não só autores nordestinos, mas de vários estados
do Brasil. Vem daí o seu incansável, contínuo
e importante trabalho como promotor cultural, criando e realizando eventos literários e
dedicando-se, sistematicamente, à divulgação da obra de dois importantes
nomes de conterrâneos seus: Ascenso
Ferreira e Hermilo Borba Filho.
Entre 1987 e 2003
voltou a Palmares, onde, à frente da
Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, com o apoio da Prefeitura de
Palmares, realizou significativo trabalho cultural .
A breve
informação biográfica, parece-me necessária para traçar o perfil de Juareiz Correya, cuja vida caminha paralela à sua poesia e vice-versa. Vibrante, tudo o que este
poeta escreve reflete a sua experiência vital : seus poemas são imprevisíveis, e
sua linguagem , visceral.
Estas reflexões
me vêem após a releitura do livro de Juareiz Correya Americanto
Amar America e outros poemas do século 20. - Panamerica Nordestal
Editora,Recife, PE, 2010 –oportuna reunião de tudo o que o autor já
publicou, quer em forma de livro, quer como simples folhetos de cordel, e creio
que mais alguns poemas inéditos até a presente edição.
Sem qualquer
intenção crítica, pois para tal são necessárias ferramentas de que não
disponho, ao traçar estas breves linhas, interessa-me apenas fixar algumas impressões da minha leitura, por me parece importante , de
alguma maneira, divulgar um autor que
tem dedicado toda a sua vida à
poesia, quer como criador, quer como editor.
A sintonia entre
leitor e autor ocorre quando o poema provoca em quem o lê um encontro , ou
seja, um
aprofundamento que vai confirmar a ressonância
a que se refere Gaston Bachelard : “o poema nos toma por inteiro” (...) “como
se, com sua exuberância, o poema reanimasse profundezas do nosso ser”.
Fico pensando: quantas
vezes a leitura de um poema se desdobra em nós numa nova criação? .
O professor Massaud Moisés, crítico e profundo conhecedor da literatura,
já disse que “ a arte literária não se reduz ( ou não deve reduzir-se) a uma
forma banal de entretenimento”. E
prossegue:” (...) mais do que recreação de alto-nível, a Literatura constitui
uma forma de conhecer o mundo e os homens: dotada de uma séria missão ,
colabora para o desvendamento daquilo que o homem, conscientemente ou não,
persegue durante toda a existência”.
Esta definição me parece justa e precisa no caso da poesia de J. Correya. Tudo o que ele escreve é a expressão de sua vida, a superação e a
libertação do seu cotidiano, o reflexo
do seu tempo , e, como consequência, o
registro do ser humano, onde quer que esteja e em que geografia habite.
Veja-se, por
exemplo, este poema:
Amo só o que conheço, nada é perdido.
O bairro onde vivo e seus arredores.
Os homens de hoje, mesmo os que decepcionam,
sem mito e esplendor,
humanamente humanos.
As obras definidas que acabo de ler.
A leitura, não a saudade, da poesia do mundo.
O Ocidente e o Oriente que, na verdade,
existem sob o sol para todos.
Os mais velhos, com quem converso
as horas de suas saudades.
As múltiplas formas da memória,
que não se faz do esquecido.
A língua que falo e as leituras que decifro.
Todos os versos de que me lembro, mesmo por
hábito.
Os amigos que não faltam, porque nunca morrem.
A ilimitada eternidade da Arte.
A mulher que está ao meu lado,
companheira indivisível.
Até mesmo o que não sei, como o xadrez e a
álgebra.
( in
América Indignada Y Poemas da Alegria da Vida
- Panamerica Produções / Nordestal Editora, São
Paulo / Recife, 1991)
Carlos Drummond de Andrade, num dos seus poemas mais
conhecidos, declarou: “Tenho apenas duas
mãos e o sentimento do mundo”. No poema de Juareiz acima transcrito, percebemos que, também ele
, não oculta o seu “
sentimento do mundo”: O bairro onde vivo e seus
arredores. /Os homens de hoje, mesmo os que decepcionam, /sem mito e esplendor,
humanamente humanos.
A imensidão interior do poeta com frequência aflora nos seus poemas. Veja-se, por exemplo, este fragmento do poema Flor que não se cheira, do conjunto Outros Poemas no livro em questão:
(...) e saio de mim e me entrego tanto/vendaval no
coração da cidade/cada vez mais nu e louco e santo/só minha paixão por tudo
arde(...) cada vez mais alto e largo e fundo/navego meu rio, capricho meu
barro/voando meu fogo purifico o mundo.
No pórtico de um
novo século, Juareiz Correya não se deixa embalar pelo marasmo do
pós-modernismo, onde muito pouco aconteceu de renovador na poesia universal.
Lendo sua obra sente-se que ele desafia o seu tempo, fugindo ao tédio de
hábitos e formas rotineiras, sem, todavia, desprezar as vozes dos
grandes e eternos mestres da poesia.
Era nisso também que eu pensava quando falei em ressonância:
porque, pelas estradas de Juareiz Correya, neste seu Americanto Amar América e
outros poemas do século XX,ouço ecos de poetas inesquecíveis (Lorca,
Neruda,Octavio Paz, F. Pessoa, Ginsberg e
tantas outras vozes marcantes) , que têm
contribuído para o canto renovado
de muitos bons poetas contemporâneos: este, inclusive.
(Texto inédito, escrito em Aldeia ,nos arredores do
Recife, 2011)
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
UM CONTO PARA O FIM DO ANO...
CAMISA BRANCA DE FALSO LINHO
Nada mais fácil
do que confundir a cor branca. Camisas brancas, então, piorou. Foi o que
aconteceu neste episódio que vou contar.
A mão,
impaciente, buzinava e o jovem empregado da lavandaria, atarantado, embrulhou a camisa branca de
falso linho junto com o paletó de
cerimonia, igualmente branco, que então se chamava “summer”. A mão impaciente
jogou o pacote no banco detrás.
Em geral, para a
Camisa Branca, aquele tempo, engomado e vazio, em férias do corpo, era o seu
dormir. Ficava incontáveis dias na
gaveta, guardada para as melhores ocasiões e,
quando por fim era desdobrada, o corpo limpo do seu dono a preenchia por completo: os botões
debruçavam-se nas casas e ela sentia-se repleta. Às vezes , num baile, a
namorada do rapaz pincelava o colarinho de batom. E então ela voltava para
a lavandaria que, na verdade, era o seu melhor
programa, literalmente uma estação de águas, com direito a psicanálise,
pois ali se libertava da poeira da vida. No geral ia acompanhada pelo paletó escocês cinza, que o dono escolhera
porque, sendo discreto , poderia usá-lo
mais vezes, sem que as pessoas se apercebessem disso.
Ela e o paletó tinham
muitas afinidades. Iam juntos aos aniversários da família, ao cinema dos
domingos, a eventos culturais e sociais .Apareciam, discretos, comportados, e a
Camisa Branca olhava as suas colegas vermelhas ,verdes, amarelas ou cor de
rosa, confeccionadas em novos tecidos artificiais , helanca e ban-lon, por
exemplo, e sentia-se muito elegante, refinada mesmo, apesar de, no íntimo,
estar consciente de que o seu linho era falso.
De qualquer modo, ela e o paletó, diante das ousadias modernosas,
entreolhavam-se, digníssimos.
Frequentemente, no arame da lavandaria, conhecia outros
paletós. Muitos deles, talvez
importados, sequer a olhavam. Outro, no entanto, mais comuns, em tecido azul ou
bege,balançavam-se alegremente, procurando tocá-la. Aqueles flertes, todavia,
não punham rubores na sua brancura.
Até que um dia,
de sol enevoado,casualmente encontrou-se no arame com um paletó branco de corte
bem diferente do seu velho amigo cinza escocês. Era um Summer e o vento
agitou-lhe as mangas, que a tocaram,
como numa carícia. O Summer desculpou-se polidamente.Explicou que estava
exausto, pois dançara muito na madrugada anterior. E, conversa vai, conversa
vem, o novo amigo revelou que no seu bolso estavam esquecidos uns brincos de
brilhante, que o seu dono retirara das orelhas da namorada. Se pudesse vê-los,
deviam estar misturados com confetes, pois aquele havia sido um baile de reveillon...
Só quando se viu embrulhada com o Summer,
descobriu que ambos pertenciam ao mesmo dono. Mas então, com que camisa havia ido
ele ao baile ? Por que tinha sido exluída dessa emoção?
Dentro do papel
cor de rosa da lavandaria não havia um mínimo de ar. Mas isso não importava
muito, pois sentia-se feliz com a nova companhia. Possivelmente iam estar
juntos muitas vezes. E já podia imaginar-se com a gravatinha preta no
colarinho.
Quando o carro
parou, a mão impaciente apanhou o pacote. Entraram em algum lugar barulhento. O
Summer cochichou: Não é costume haver tanto barulho por aqui ...
Várias portas se
abriram. Até que finalmente uma se fechou com estrondo. A mão rasgou o papel
cor de rosa. Summer foi estendido numa
cadeira. Camisa estava sendo vestida
e,quando o primeiro botão espreitou pela casa, ocorreu um duplo
desapontamento.O dela , pois aquele
quartinho de paredes sujas não era o
ambiente a que estava habituada. Por seu lado, o rapaz que a vestia , exclamou:
Mas esta não é a minha camisa!
Entretanto,
alguém bateu á porta : Depressa, Bonifácio, o movimento hoje é grande. Há
muitos fregueses à espera!
Bonifácio olhou-se
no caco de espelho que estava sobre o armário. Considerou, com desprezo, o
colarinho da camisa. Deu um muxoxo. Mas não havia tempo para investigar a troca
e resolveu vestir o paletó branco, uma vez que não tinha outra roupa à mão.
As mangas do
casaco dobravam-se em adeuses. Ele
puxou-as: Como pode ser isto? Tudo trocado, ora bolas!...
Novas pancadas à
portas:
- Bonifácio, é
para hoje? Desse jeito você vai mal!
Era o seu
primeiro dia de trabalho. Nervoso e
atrapalhado, ao servir o primeiro
freguês, derramou-lhe nas calças molho de peixe. Foi
posto na rua. Furioso, despiu a camisa no quartinho dos fundos do restaurante e
deixou-a amassada a um canto.
No dia seguinte,
o faxineiro encontrou-a. Levou-a para casa e disse ao
irmão, que era pescador: Dá uma lavada e
fica com a camisa para você. É boa para
o mar!
Assim aconteceu.
Camisa Branca viajou muitas vezes com o
pescador, até que uma borrasca fez naufragar
o precário barco que lhe pertencia. Na esperança de que o vento o salvasse, o
pescador esticou a camisa numa vara, transformando-a numa vela. Ninguém sabe
que rumo tomaram, ou se aportaram em
alguma praia.
Maria de Lourdes Hortas
Recife, novembro,
1964
( Conto
encontrado numa pasta entre papéis
antigos).
domingo, 16 de novembro de 2014
RELEITURAS (II)
TEOREMA
Que nome tem o que em mim flameja
por vezes claro e tão luminoso
outras, tão fundo, que se põe umbroso
que nome tem, em mim, seja o que seja?
Quem equaciona este teorema?
como cifrá-lo, que signo lhe invento?
Vem na cadência do tropel do vento
o repetido som que o emblema?
Ah fogo fátuo, cometa em viagem
alumiando nos breus do contexto
os plenilúnios de outro personagem:
lume verbal, lanterna de romagem
a projetar nas ruas do pretexto
a sombra que me leva na bagagem.
(in Relógio d´água, 1985)
LEGADO
Para amanhã e depois, mais tarde
àqueles que ainda gostem de chuva
para habitar enigmas
labirintos e prodígios
para não deixar fugir o espanto
diante das coisas essenciais
para ouvir
o silêncio de Deus
para não me perder de mim:
escrevo.
(in Fonte de Pássaros,1999)
MALA
Espécie de mala
a alma
do poeta
porão onde se guarda
tudo o que serve
para a poesia:
cartas por enviar
labirintos de intenções
partituras inacabadas
vertigens inominadas
catedrais de silêncio
mapas indecifrados
eclipses, horizontes
icebergues, vulcões
sonatas de chuva
retratos em sépia
arquivo de auroras
e crepúsculos
maravilha de instantes
tempo avulso
que se escoa e nos leva
na voragem da ciranda.
O que guardo na alma
Abro na poesia:
Nela interrogo a vida
Dia após dia.
( in Rumor de Vento, 2009)
terça-feira, 9 de julho de 2013
Seis poemas de chuva para as águas de julho
APASSIONATA
De madrugada
andante
o vento
veio
assobiando
para
anunciá-la.
Em surdina
mãos de anjos abriram
a partitura :
acordes, arpejos
tilintar de
candelabros.
Nos teclados de julho
a sonata da chuva:
cascata de cristal
-- apassionata.
(inédito, julho/2013)
Nestas sonatas de inverno
cachoeiras pluviais
pluralizam-se os eternos
dilúvios conventuais:
cisternas de aves retidas
em claustro de pedra e sombra
inventário de outra chuva
que em minha chuva se alonga.
Cursos d´água que reatam
um a um os vendavais
mantos, rendas de arrepios
nos ombros das sombras nuas
sobrepostas nos vitrais.
( in Relógio d ´Água)
Maria Hortas
Conversas de botequim
Acrílico sobre tela
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DE CHUVA quero esta cantiga mansa
por ti deslize como desliza a dança
da chuva pelo sonho da infância.
De chuva quero esta cantiga terna
em ti se empoce como se guarda eterna
a chuva no escuro da cisterna.
( in Flauta e Gesto)
ACALANTO
Quando a noite passeia pelo jardim a brisa
traz de volta a infância no seu coche noturno.
E no sono regressa a dolente cantiga
contradança de inverno
pandeiretas de chuva.
O marulho do bosque
conversas de arvoredo
de um mundo sem pressa
hibernando em segredo.
Negra molhada noite
onde respira a vida
contradança de inverno
pandeiretas de chuva.
( in Fonte de Pássaros)
PLUVIAL
Vergastando a noite
Vem a chuva
ventania
subitamente abrindo
todas as janelas
do meu coração.
( in Fonte de Pássaros)
Maria Hortas
acrílico s/ tela
da série JARDINS
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CÍCLICO
De vez em quando um vendaval me visita
e arreda as telhas do telhado:
estrelas me espreitam e bentevis me acordam.
( in Fonte
de Pássaros)
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
HISTÓRIA DE NATAL
Com alvo cendal, Maria coberta.
- Acorda, Maria - José a desperta.
O burrinho-monge
paciente aguarda.
- Acorda, burrinho - José o encilha.
As heras e o musgo lhe arranca do alforge.
Põem-se a caminho Maria e José.
Procuram um longe para descansar.
Há tantos Natais procuram um longe:
Um Deus quer nascer e não há lugar.
Outra vez a gruta emerge e degela.
os pastores, cândidos, ocupam nos montes
o lugar de sempre:
à espera do Anjo
que desce da estrela...
Seguem os viajeiros
Maria e José:
procuram um longe
para descansar.
Os homens fecharam as portas do mundo:
um Deus quer nascer
e não há lugar.
( releitura de um poema publicado em Fio de Lã,1979/Recife
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