CAPITULO 41.
Que fantasmas se escondem e me espreitam
por detrás das cortinas,
sacadas obscuras, brumas, arcarias?
Aonde foram os anjos e as cegonhas?
Não há neve nos telhados.
Não há lobos nos montes.
E os ciganos partiram comigo.
Signos renascem, exatos e imóveis,
tão antigos e tão novos,
tão meus e tão estranhos.
Agora sou apenas a visitante,
que vem de longe e passa, forasteira.
No entanto estas pedras, estas heras,
estas giestas,
este pinhal, chão de carumas e avencas,
esta cor macia,
este barro e musgo,
estas bermas de ervas, estas sombras,
estas árvores,estes muros de rosas, estes granitos,
este êxtase, isto - ai,
tudo isto!
- sou eu, meu avesso, meu dentro,
lugar secreto,
minha ermida,
convento,
onde só comigo me encontro.
(in Diário das Chuvas, ed. Bagaço/Recife/1995
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
sábado, 11 de junho de 2016
Crônica lirica de São Vicente da Beira
Ao sul, no regaço da Gardunha
imerso no acalanto dos pinhais
aconchega-se um lugar de maravilha
que resiste ao tempo e aos vendavais:
São Vicente da Beira, vila antiga
de foral e glorias medievais.
Reza a lenda que há, nas redondezas
ruínas de um castelo, ou cidadela
vestígios de história e de grandezas
que se guardam ali, de tempos mouros
onde um gato de pedra é sentinela
de séculos, de estrelas, de tesouros.
Na verdade esta vila foi fundada
por Afonso Henriques, rei primeiro
em paga aos favores de um valente
castelão quando aos mouros combatia:
são heranças que vêm desde sempre
terra da melhor cepa e melhor gente.
Tanto assim, sendo terra de valia
com insígnias e honras assinalada
foi então consagrada a São Vicente
e à capital do reino irmanada
na heráldica, também no padroeiro
de Lisboa pequena foi chamada.
Se episódios de infâmia e de amargura
a cronica vicentina atravessaram
saqueando-lhe honras e foral
esses contos e cantos de tristura
anais e pergaminhos não levaram
nem o orgulho da vila medieval.
Casario de pedra onde as heras
testemunham séculos de vida
no percurso de tantas primaveras
por rotas de chegada e de partida:
aqui um chafariz nos mata a sede
além uma ribeira se desvenda.
os brasões da história vicentina
encontram-se na pedra eternizados:
nos solares, nas fontes, nas esquinas
dão-nos conta de gentes e de fados.
E os sinos das igrejas em canto novo
contam contos dos feitos deste povo.
Na praça o capitel do Pelourinho
assinala raízes ancestrais
pássaro, escudo, barca, cruz florida
resistindo ao tempo e aos vendavais:
São Vicente da Beira, vila antiga
de foral e glorias medievais.
( in Cantochão de Todavia- coletânea publicada pelo GEGA, São Vicente da Beira/2005)
Faz parte de POESIA REUNIDA DE MARIA DE LOURDES HORTAS,
livro virtual , editado pela Panamerica Nordestal/Recife, a ser lançado em agosto próximo.
FONTE DE PÁSSAROS
Alfombra macia de luar e pétalas
assim por certo tua pele
onde me deitaria
abandonada como no chão da infância.
Enche-se de
abelhas
minha alma.
Ao longe os sinos.
Ao longe os barcos.E eu em ti
sozinha às portas do baile
ouvindo os boleros que retornam
esplendor, névoa, perfume, arrepios
vaga-lumes
sedas.
E eu sem ti
enquanto as ondas
uma a uma regressam - inquietas águas.
E eu aqui
enquanto o vento levianamente assobia
invadindo frestas da janela
onde ninguém espero.
E eu aqui
desfolhando as páginas do diário
como se desfolhasse margaridas e esperanças.
De onde nasce este desassossego rutilante
fonte de pássaros
em meu coração?
Maria de Lourdes Hortas
( in FONTE DE PÁSSAROS,1999)
sexta-feira, 25 de março de 2016
NOVA JERUSALÉM UM PALCO DE SETE HECTARES
(publicado na revista ITINERÁRIO, Coimbra/
Portugal , 1969)
Fim dos anos sessenta, no Nordeste do Brasil.
No roteiro do turista que passe por estas plagas
, uma visita á cidade de Nova Jerusalém é obrigatória.
Saindo do Recife, ele atravessará a Serra das
Russas, passando por Gravatá ( conhecida como a
Suíça pernambucana) e por Caruaru, terra do famoso ceramista mestre Vitalino, que modelou os
tipos característicos da sua terra. Mais alguns quilômetros de cactos e
mandacarus e sentirá a fusão do calor e do silêncio, num mundo exótico
e surpreendente. Pedras agudas formam os montes. A terra é seca e
arenosa. Arbustos são a única nota verde-cinza
e o sol cai à vontade sobre toda a paisagem, sem sombra que o detenha:
eis Fazenda Nova, lugar cujo mérito, até alguns nos atrás, era possuir águas
alcalinas.
O turista
decepciona-se: então, percorreu léguas e léguas para encontrar uma estaçãozinha
de águas e um hotel cuja única beleza consiste numa piscina onde andorinhas
descem para se banhar?
Prossegue viagem. Envereda por caminhos de cabras. Chega à muralha de
Nova Jerusalém e contempla a
concretização de uma utopia.
A UTOPIA DE PLÍNIO PACHECO
Foi Epaminondas Mendonça quem jogou a primeira
semente do sonho. Leu numa revista que,
numa vila da Baviera, durante a Semana Santa, a Paixão de Cristo era encenada
nas ruas pelos seus habitantes. A ideia de fazer algo parecido em Fazenda Nova
surgiu e não o abandonou. Assim, em 1950, nas tortuosas ruas da pequena cidade,
aconteceu a primeira representação do Drama do Calvário,
com um elenco heterogêneo, composto pela família do próprio Epaminondas, e por
lavradores e carregadores de água da região.
A encenação alcançou um realismo impressionante.
Repetida nos anos seguintes, logo se tornou tradição. E, em 1962, mil e
duzentos espectadores invadem Fazenda Nova, deslocando-se atrás dos atores que
ressuscitam a epopeia cristã.
Já então um plano fantástico se delineava na
mente de Epaminondas: reconstituir uma Jerusalém semelhante o mais possível à
da época de Jesus, com o objetivo de dar ao espetáculo condições de máxima
realidade.
O homem capaz de se embrenhar nessa aventura
teria de ser um visionário ou um romântico, um bandeirante ou um bravo. E ele
surgiu na pessoa de Plínio Pacheco :
casando-se com uma filha de Epaminondas Mendonça, logo abandonou a farda da força Aérea
Brasileira, despediu-se do barulho das redações dos jornais e foi morar em
Fazenda Nova.
DO PROJETO À REALIDADE
Adquirindo o terreno de 70.000m2 ( um terço da
área murada da velha Jerusalém), cactos e pedregulhos foram dando lugar a
edifícios e casas no estilo da época de Cristo. Com base em pesquisas
históricas e plantas feitas, entre outros, por Ana Gonçalves, Walter Macedo,
Frederico de Holanda, Ubirajara Galvão e pelo próprio Plínio Pacheco, o projeto
que parecia irrealizável foi se transformando em sólida realidade de granito.
No momento ( 1969) construíram-se já os palácios de Asmoneus e o de Herodes, o Forum de Pilatos, o templo, o
tribunal de Caifás, o Cinédrio e o cenáculo. Ao lado deles, surgiram os
arruados da Via sacra e, nos arredores, réplicas do Monte das Oliveiras, Fonte
das Virgens e Santo Sepulcro.
Este palco de sete hectares – hoje o maior palco
ao ar livre do mundo – será fechado por uma muralha de pedra bruta, com sete
portas, das quais, uma já concluída, serve de entrada para o recinto.
Plínio Pacheco, que passa o dia numa das casas do
arruado da Via Sacra, recebe o visitante, oferece-lhe água e sucos, e tem gosto em contar a história de Nova
Jerusalém.
Foi aí que me recebeu e me contou tudo o que escrevo neste texto,
explicando que os edifícios construídos não servirão apenas como palco do grandioso espetáculo
anual. Em breve, periodicamente, ali acontecerão festivais de teatro grego, de dança, de canto
coral, de cinema. Também pretende
movimentar cursos, conferencias e exposições. Tudo isso visando tornar Nova
Jerusalém um centro atuante de cultura, dinamizado por uma colônia de férias,
que aproveitará as próprias casas e palácios da cidade-teatro, propiciando a
artistas, jornalistas e gente ligada à cultura uma hospedagem paga, em parte,
com exposições de seus trabalhos e promoção de cursos e conferencias.
Por outro lado, o aspecto social não foi
esquecido: atualmente uma escola para crianças funciona no palácio de Asmoneus,
mas, no futuro, serão instaladas escolas artesanais e de alfabetização de
adultos.
O ESPETÁCULO PROPRIAMENTE DITO
Desde aquela representação despretensiosa de 1950
até hoje, o espetáculo cresceu muito. Nele colaboram centenas de pessoas, desde
técnicos, atores, um coral de 50 vozes, um conjunto de danças clássicas e
extras requisitados entre os habitantes da cidade. Os figurantes, cerca de
quinhentos, envergam um guarda-roupa especialmente desenhado e confeccionado
para a peça.
O desenvolvimento das cenas tem início na
quinta-feira á noite, com o Sermão da Montanha. Os espectadores, por 3 horas,
seguem os atores e os extras e a eles se misturam, no Templo, no Cenáculo, no
Horto, no tribunal de Caifás.
Na sexta-feira, também à noite, o espetáculo
prossegue, desde o Forum de Pilatos até o Calvário, onde se assiste, num
ambiente trágico, à crucificação de Jesus, terminando com a grandiosidade da
ressurreição.
CONVITE
Quando passar pelo Recife, mesmo que não seja
época de Semana Santa, não deixe de atravessar o agreste pernambucano para conhecer a Nova Jerusalém. Lá encontrará um
homem com pele de bronze e pulso de ferro. De bermudas e chapéu de palha, confunde-se com os operários que,
indiferentes à inclemência do sol, com suas ferramentas primitivas, arrancam da
pedra os capitéis do sonho: trata-se de Plínio Pacheco, uma espécie de profeta
moderno, que lhe abrirá a sua Nova Jerusalém, exemplo de persistência, de fé e
de milagre.
Nota
da autora: da época em que o artigo acima foi escrito, até
hoje, muita coisa mudou em Nova
Jerusalém. Por exemplo: atualmente o espetáculo
ocorre num só dia, repetindo-se de quinta a domingo; em geral tem como ator principal um astro das novelas
da TV, que se renova todos os anos.
Abaixo , como atualização, transcrevo
algumas informações, recolhidas no
site de Nova Jerusalém.
NOVA JERUSALÉM NO SÉCULO XXI
Constituída por nove palcos, em uma área de 100
mil m², cercada por uma muralha de 3.500 m e 70 torres, Nova Jerusalém
corresponde a um terço da Jerusalém original, onde Jesus viveu seus últimos
dias.
Idealizada e construída por Plínio Pacheco, a cidade-teatro está localizada no distrito de Fazenda Nova, no município de Brejo da Madre de Deus, a 180 km do Recife, capital pernambucana.
Assistido por mais de dois milhões e meio de pessoas, com um público médio diário de 8.000 e conseguindo atingir a marca de 72.000, no aniversário de 40 anos, o maior teatro ao ar livre do mundo encanta turistas nacionais e internacionais pela estrutura e semelhança com a Judéia dos tempos da dominação romana.
Os palcos reproduzem os cenários naturais, os arruados, o Palácio de Herodes, o Fórum de Pilatos, o Templo de Jerusalém e o Cenáculo, constituindo uma obra monumental. Tudo é grandioso, encantador e inesquecível.
O requinte dos detalhes, a beleza plástica e a qualidade impressionam o público que, a cada ano, lota os espetáculos.
Idealizada e construída por Plínio Pacheco, a cidade-teatro está localizada no distrito de Fazenda Nova, no município de Brejo da Madre de Deus, a 180 km do Recife, capital pernambucana.
Assistido por mais de dois milhões e meio de pessoas, com um público médio diário de 8.000 e conseguindo atingir a marca de 72.000, no aniversário de 40 anos, o maior teatro ao ar livre do mundo encanta turistas nacionais e internacionais pela estrutura e semelhança com a Judéia dos tempos da dominação romana.
Os palcos reproduzem os cenários naturais, os arruados, o Palácio de Herodes, o Fórum de Pilatos, o Templo de Jerusalém e o Cenáculo, constituindo uma obra monumental. Tudo é grandioso, encantador e inesquecível.
O requinte dos detalhes, a beleza plástica e a qualidade impressionam o público que, a cada ano, lota os espetáculos.
OBS: in NOS BASTIDORES DA POESIA ( livro inédito,
reunião de textos críticos e outros temas de Maria de Lourdes Hortas)
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
DIÁRIO DAS CHUVAS
Havia um pote de barro no quintal da infância. Da altura dos meus seis anos, sua boca media-me a circunferência da cabeça. Caramujos e lesmas se abrigavam na camada de musgo que o fixava ao chão.Pardais e andorinhas, pousando-lhe nas bordas lisas, vinham mirar-se em suas águas. A avó providenciava para que o pote jamais ficasse vazio.No inverno era mais fácil: a chuva do beiral fazia-o transbordar.Mas no verão tornava-se necessário despejar-lhe dentro vários cântaros, um para cada dia de estio. Ao relento, espectador de todas as estações, aparava moedas de sol, estilhaços de relâmpagos, farrapos de neve, pingos de orvalho e lua cheia. Servia para muitas coisas aquele pote:sua água regava as dálias e a salsa dos canteiros. Ali debruçada, tardes a fio inventei cantigas. Ecoando cântaro a dentro, me parecia muito linda a minha voz, enquanto para mim mesma cantava, sentindo pulsar nas têmporas o coração, o cheiro do barro molhado e as cintilações dos astros guardados lá no fundo me entontecendo. Ao verter a alma naquele caleidoscópio de água cristalina, sem saber estava descobrindo a poesia.
Maria de Lourdes Hortas
(texto extraído da novela Diário das Chuvas, cap.III. Editora Bagaço, Recife/1995)
terça-feira, 9 de fevereiro de 2016
ACERCA DO LIVRO SOLIDÕES DA MEMÓRIA DE DALILA TELES VERAS
a memória da infância
é a memória possível
( e só à poesia cabe recriar)
Dalila Teles Veras
Dalila Teles Veras nasceu na Ilha da
Madeira em 1946, mas veio para o Brasil, acompanhando a família aos onze anos de
idade. Atualmente vive em Santo André - SP. Sem
dúvida, trata-se de uma das mais
significativas escritoras da literatura lusófona contemporânea, sobretudo porque, sendo imigrantes, pertence à
literatura de duas pátrias.
Pela Alpharrabio
Edições, que comanda, publicou recentemente ( 2015) o
livro Solidões da Memória, onde está
patente a condição de quem, como ela muito bem diz nas anotações finais,” ter duas
pátrias é como estar em permanente estado de exílio”.
O título do livro foi inspirado por um verso de Raul Bopp , citado nas epígrafes iniciais: Saudade
é uma revivescência/Solidões da Memória/ coisas que ficaram do outro lado do
mar.
Além do poeta
modernista, muitas das afinidades literárias
da autora desfilam nas epígrafes que abrem todos os
seus poemas: Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner, Guimarães Rosa,
Drummond, e tantos outros altíssimos nomes. Ao nos revelar os padroeiros da
sua poesia, Dalila confirma que todos os poetas se constroem não só da sua vocação e sensibilidade, mas de
tudo o que leem e vão absorvendo, conscientemente ou não, ao longo do seu
itinerário existencial.
Neste memorial, Dalila Teles Veras dá relevo ao mundo da infância, lugar de impossível regresso:
O regresso
(ainda que da memória seja
o mergulho
vertical e fundo)
é paz impossível.
(in A Ilha à
minha porta amarrada)
Forte e densa, tecida com
a exatidão das palavras essenciais, assim é a poesia de Dalila Teles Veras, de contido sentimento , como contida foi a sua Educação pelo silêncio (pg. 23):
“Rosto vincado/palavras poucas/a avó (...) em silêncio(...)
as palavras
inauditas(...)
em silencio, celebrávamos/o pacto de sangue/
na pedra firmado,
código/para enfrentar sortilégios.”
Esse código de silencio, para
enfrentar sortilégios me parece ser a chave da poesia de Dalila Teles Veras. Escassez descrita no poema do mesmo título:
consumo escasso
diversão escassa
existir
escasso (...)
Ecos de escassez que , de resto, marcam a sua escrita:
(...) Na austeridade da
arca
a casa
reduzida ao essencial.
(in Bagagem )
No final do livro Dalila
nos revela a sua Caderneta de Anotações, datadas de maio de 2012, por ocasião
de uma viagem à Ilha da Madeira. Ali encontramos certamente muitas das matrizes
dos poemas de “Solidões da Memória”. Todavia, mais do que nessas breves anotações, sentimos que os “ rizomas” da sua profunda insularidade , ela os foi buscar no inominável espaço onde guarda as cicatrizes
e pegadas da sua história.
Recife, fevereiro, 2016
Maria de Lourdes Hortas
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CONFIDÊNCIA DA MADEIRENSE
Dalila Teles Veras
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste,
orgulhoso: de ferro.
Carlos Drummond de Andrade
alguns anos vivi na madeira
principalmente nasci na madeira
por isso sou melancólica, teimosa: urze
de nascença, em luta frente às intempéries
(de solo, do vento e das vagas marítimas)
alma em permanente desassossegar
da madeira nada de material veio comigo
e não há nada que eu possa ofertar
mas da madeira vem este ar atrevido
a língua maldicente e áspera
e o hábito de tudo reclamar
atavismos que a consciência, por vezes
rejeita
a madeira não é apenas fotografias
é a memória real dos precipícios
e das vertigens
encordoamento
do que não parecia lembrado
mas é
a memória do que não foi
mas poderia
e sequer dói
sábado, 22 de agosto de 2015
Discurso proferido no Gabinete Português de Leitura na solenidade de 10 de junho: Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas
O V IMPÉRIO PORTUGUÊS: DE CAMÕES A FERNANDO PESSOA
Aquele movimento hierético da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir
das palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro
vocálico em que os sons são cores ideais
- tudo isso me toldou o instinto como uma grande emoção política.(...) Minha
pátria é a língua portuguesa.
Palavras de Bernardo Soares, semi-heterônimo de Fernando Pessoa, revelando o seu
alumbramento, incontida admiração pelo
Padre António Vieira, depois de ter lido a sua História do Futuro.
No ano em curso, o mundo lusófono presta homenagem a
Fernando Pessoa, pela passagem dos 80 anos da sua morte e também pelos 100 anos
de publicação do primeiro número da revista Orfeu, de cujo grupo Pessoa
participou ativamente, como idealizador e colaborador.
Assim, é mais do que justo, darmos a Fernando Pessoa um lugar especial em nossa festa, porque tanto Camões quanto Pessoa são símbolos da identidade nacional
portuguesa.
A epigrafe que escolhi, lida no início da minha breve fala, trás uma frase de Fernando Pessoa, que muitas vezes já
ouvimos: “A minha pátria é a língua portuguesa.” Segundo o ensaista João Gaspar Simões,
biógrafo do poeta, “ a primeira tentativa de naturalização de Pessoa adveio
após a leitura do Pe. Vieira. Através da História
do Futuro, tomou ele conhecimento dos vaticínios anunciados por um poeta
popular, Bandarra, o sapateiro de Trancoso, segundo o qual a Portugal estava
reservada a missão de realizar o V Império do Mundo.
Fernando Pessoa passou grande parte da sua infância e
juventude na África do Sul, para onde foi levado, aos oito anos, acompanhando a
sua família , e onde recebeu toda a
base da sua educação e cultura, chegando a ter mais familiaridade com a língua
inglesa, na qual escreveu os primeiros poemas.
Ainda segundo Gaspar Simões: ao se deparar com a obra de
Vieira, “ foi como se Fernando Pessoa tivesse sido levado a associar, na mesma idéia ,
o seu sentimento patriótico e o sentimento de redenção da pátria, que ele
sentia profundamente abatida.”
Também os Lusíadas de
Camões, tocaram profundamente a alma do jovem poeta que, regressando à pátria,
buscava conhecê-la e reconhecê-la como sua.
Em
1922, apenas com 24 anos, ele escreveu na revista Águia, profetizando sobre um poeta vindouro, que encarnaria o auge da poesia. E declarou: Supra- Camões lhe chamaremos...
Quatro séculos separam Luis Vaz de Camões de Fernando
Pessoa. O grande vate dos LUSÍADAS nasceu em Lisboa, no século XVI, ano de 1527, em
pleno do renascimento europeu, fase histórica que reacendeu as referências da Antiguidade Clássica. Grandes
mudanças culturais e sociais estavam em curso.
Portugal havia
conquistado a sua soberania, após as
lutas contra os mouros e Castela. Dotados de espírito aventureiro , os
portugueses tinham desvendado os mistérios dos oceanos, lutando bravamente contra as
forças hostis da natureza, abrindo rotas de comércio e expandindo as fronteiras
do mundo.
Estava portanto preparado o cenário para ser escrita a
grande epopéia nacional. E foi Camões quem
tomou para si o encargo de enaltecer os feitos da sua gente.
Da sua infância, não há qualquer registro. Sabe-se apenas
que nasceu numa família de pequena aristocracia. Quanto à sua juventude, tudo
leva a crer que, pela forma como pôde executar a sua obra prima,certamente
esteve em Coimbra, já então meca da cultura portuguesa.
Camões dominava o latim e o espanhol; conhecia os poetas da literatura clássica e estava a
par do que acontecia literariamente na
Itália e na Espanha.
Jovem galante, frequentou a corte de D. João III,
encantando o paço com a sua poesia lírica, envolvendo-se, segundo reza a
tradição, em romances com algumas damas
. Supõe-se que, por conta de um desses capítulos amorosos, partiu para
a África como militar e lá perdeu um olho numa batalha. Viajante
contumaz, esteve no Oriente , onde enfrentou uma série de peripécias e
adversidades.
Nesse clima
de instabilidade e aventura compôs a
obra que o imortalizou: no íntimo do
grande poeta, contra tudo e contra todos, o que pulsava era a poesia. Nos
Lusíadas, conseguiu conciliar, com
espantosa harmonia, a sua erudição clássica com a sua experiência de vida. Tanto
assim que Jorge de Sena afirmou : “ nada é arbitrário em Os Lusíadas.”
Dominando com maestria todos os recursos da
língua e da versificação, Camões realizou
não só a maior epopéia portuguesa
, mas uma das maiores epopeias do Renascimento.
Quando, em
1570, regressou a Lisboa, apresentou-se
no Paço e recitou os LUSÍADAS a D. Sebastião, ainda adolescente. Entusiasmado,
o jovem monarca determinou que a epopeia fosse publicada - o que ocorreu em 1572 - e que fosse concedido a Luís de Camões,
cavaleiro fidalgo da sua Casa, em paga dos seus serviços prestados na Índia , uma
pensão vitalícia. Ao que tudo indica, tal pensão não foi muito generosa, pois, segundo
os seus biógrafos, o poeta viveu com
dificuldades e encerrou os seus
dias, no dia 10 de junho de 1580, em extrema pobreza.
O imortal
cantor das glórias lusitanas foi um
renovador da língua portuguesa. Em sua
epopeia, com ufanismo declarou:
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram:
Que eu canto o peito ilustre
Lusitano,
A quem Netuno e Marte obedeceram.
...........................................................
Cesse tudo o que a Musa antiga canta
Que outro valor mais alto se
alevanta.
O
reconhecimento d e Camões e sua obra como emblema da nação portuguesa vem de
longe. Já em 1580, durante a monarquia
dual de Filipe II , o monarca espanhol achou
por bem prestigiar os súditos
portugueses, mandando traduzir Os
Lusíadas para o castelhano.
No século
XIX, Camões volta a alcançar grande destaque: Os Lusíadas passaram por
várias releituras, sendo mitificados por Almeida Garrett e Antero de Quental, expoentes
máximos do romantismo. E, por
ocasião do tricentenário da sua morte,
a 10 de junho de 1880, quer em Portugal,
quer no Brasil, foram lhe prestadas grandes homenagens. Portugal debatia-se entre a legitimidade da
monarquia e as revindicações democráticas. Camões – conforme referem os jornais
da época- foi apresentado como símbolo de revivescência do seu país, tornando-se
síntese da nacionalidade.
Mais tarde,
durante o Estado Novo ( ou salazarismo), Camões volta à cena: desta vez, tanto
o vate quanto os Lusíadas são usados como elementos propagandísticos.
No entanto,
só depois de passados três anos sobre a
chamada Revolução dos Cravos, Camões foi associado publicamente às Comunidades
Portuguesas, tornando-se o 10 de junho, O Dia de Camões , de Portugal, e das Comunidades Portuguesas. A nova
ideologia foi reafirmada com a transformação do Instituto de Língua e Cultura
Portuguesa em Instituto Camões.
Paralelamente,
criou-se um novo
sentido de identidade nacional,
englobando os muitos emigrantes
portugueses espalhados pelo mundo.
Como já disse neste texto, longos quatro séculos de
história e literatura separam Fernando Pessoa de Camões.
Ao apagar
das luzes do século XIX , a 13 de junho
de 1888, no ano Largo de São Carlos em Lisboa, nasceu aquele que viria a ser o
mais universal poeta português: FERNANDO
ANTÓNIO NOGUEIRA PESSOA . Considerado pelo crítico literário Harold
Bloom como o “Witman renascido “, foi
incluído por ele entre os 26 melhores escritores da civilização
ocidental, não apenas da literatura portuguesa, mas também da inglesa.
Tanto Camões, quanto Pessoa, se preocuparam com a
identidade nacional. Quando Fernando Pessoa surgiu no cenário la literatura
portuguesa, na segunda década do século
XX, a poesia camoneana permanecia viva. Pessoa se deu conta disso e, consciente
do seu próprio potencial, sonhou ser ele o Supra-Camões.Muitos estudiosos pessoanos têm afirmado que a sua obra foi uma tentativa de superar a obra
camoneana. Tal intenção é visível no
único livro que o poeta publicou em vida:
MENSAGEM ( 1934), um ano antes da sua morte.
Existirá alguma semelhança entre OS LUSÍADAS e a MENSAGEM?
Certamente a semelhança incontestável reside no fato de as duas obras enaltecerem e glorificarem os
fatos mais significativos dos descobrimentos, capítulo maior na História
Portuguesa.
Quando Camões escreveu a sua Epopéia, haviam-se passado
apenas 50 anos sobre a viagem de Vasco da Gama. Tendo se apercebido da importância daquele feito , o grande
poeta centralizou-o na sua narrativa, aproveitando o ensejo para contar toda a História de
Portugal, engrandecendo os vultos principais e outros feitos heróicos dos seus compatriotas.
Por seu lado,
Pessoa, sentia-se decepcionado com a realidade portuguesa do seu tempo: a decadência da monarquia e os
novos ideais republicanos. No íntimo,
visionariamente, procurava uma missão,
que pudesse levá-lo a construir novos tempos. Nesse sentido, chegou a
escrever vários textos, entre os quais o
opúsculo “Como Organizar Portugal” onde
abordou o decadentismo da época. Segundo o Prof. Alfredo Antunes, “tal
trabalho é um espelho das suas preocupações teóricas para justificar a
necessidade de um novo D. Sebastião ou super- Camões, que venha estabelecer o
Quinto Império espiritual.”
Em 1917, pela voz de Álvaro de Campos, Pessoa anuncia : “ O Quinto Império, o futuro de
Portugal – que não calculo, mas sei – está escrito já, para quem saiba lê-lo,
nas trovas de Bandarra, e também nas quadras de Nostradamus. Esse futuro é
sermos tudo.Quem, que seja português, pode viver na estreiteza de uma só
personalidade, de um só nação, de uma só fé?”
A MENSAGEM é uma versão moderna , espiritualista e
profética dos Lusíadas. Contendo poemas
de diferentes datas,foi concebido como um
grande Poema. Segundo o prof.
Alfredo Antunes , “ A cadeia de heróis
que vão passando pela primeira parte desse seu “ canto maior” a Portugal,
arranca da História cada uma das
virtudes que são necessárias para caldear uma raça e um povo .(...) Viriato, Conde D. Henrique, D. Tareja, D. Afonso Henriques,
D. Dinis, D. João o Primeiro, D. Filipa de Lencastre são – para usar a expressão de David Mourão Ferreira – “ os seculares motivos “ (...) E assim, a cada herói do passado, faz a
súplica necessária para o Portugal do futuro.”
Construida sobre uma estrutura de simbolos e mitos, a Mensagem
convoca os portugueses a prosseguirem na sua missão histórica, sem jamais esquecer a essencia da sua Pátria.
Na segunda parte de Mensagem
– Mar Português – Pessoa reconhece
a missão dos heróicos navegadores
portugueses, que com audácia, sofrimento e sacrifício, construiram o destino de
uma supra-nação.E escreveu um dos mais belos poemas da Mensagem:
Ó mar salgado,
quanto do teu sal
São lágrimas de
Portugal!
Por te
cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos
em vão rezaram!
Quantas noivas
ficaram por casar
Para que fosses
nosso, ó mar!
Valeu a pena?
Tudo vale a pena
Se a alma não é
pequena.
Quem quer passar
além do Bojador
Tem que passar
além da dor.
Deus ao mar o
perigo e o abismo deu,
Mas nele é que
espelhou o céu.
Hoje, o V
IMPÉRIO que Pessoa sonhou é a língua portuguesa, a pátria que ele tanto reverenciava. Não foram apenas os
audazes navegadores que implantaram a língua portuguesa pelo mundo. Dessa feito participaram também todos os emigrantes que,
ao longo dos séculos, foram se espalhando pelo globo, deixando a cultura
portuguesa nos seus países de acolhimento.
O site do
Observatório da Língua Portuguesa ,
aponta para 244. 392 milhões o número de falantes de
português em todo mundo, sendo a nossa, a quarta língua mais falada,
atrás do mandarim, do espanhol e do inglês . Hoje o idioma português é falado nos cinco continentes, como
língua oficial de 9 países e 14 regiões.
Quero encerrar as
minhas palavras, homenageando os emigrantes anonimos, que deixaram a sua pátria
para sempre, repetindo um dos mais
belos versos de Fernando Pessoa:
´´O mar salgado,
quanto do teu sal, são lágrimas de Portugal?
Recife,
10/6/2015
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