sábado, 11 de junho de 2016

Crônica lirica de São Vicente da Beira


Ao sul, no regaço da Gardunha
imerso no acalanto dos pinhais
aconchega-se um lugar de maravilha
que resiste ao tempo e aos vendavais:
São Vicente da Beira, vila antiga
de foral e glorias medievais.

Reza a lenda que há, nas redondezas
ruínas de um castelo, ou cidadela
vestígios de história e de grandezas
que se guardam ali, de tempos mouros
onde um gato de pedra é sentinela
de séculos, de estrelas, de tesouros.

Na verdade esta vila foi fundada
por Afonso Henriques, rei primeiro
em paga aos favores de um valente
castelão quando aos mouros combatia:
são heranças que vêm desde sempre
terra da melhor cepa e melhor gente.

Tanto assim, sendo terra de valia
com insígnias e honras assinalada
foi então consagrada a São Vicente
e à capital do reino irmanada
na heráldica, também no padroeiro
de Lisboa pequena foi chamada.

Se episódios de infâmia e de amargura
a cronica vicentina atravessaram
saqueando-lhe honras e foral
esses contos e cantos de tristura
anais e pergaminhos não levaram
nem o orgulho da vila medieval.

Casario de pedra onde as heras
testemunham séculos de vida
no percurso de tantas primaveras
por rotas de chegada e de partida:
aqui um chafariz nos mata a sede
além uma ribeira se desvenda.

os brasões da história vicentina
encontram-se na pedra eternizados:
nos solares, nas fontes, nas esquinas
dão-nos conta de gentes e de fados.
E os sinos das igrejas em canto novo
contam contos dos feitos deste povo.

Na praça o capitel do Pelourinho
assinala raízes ancestrais
pássaro, escudo, barca, cruz florida
resistindo ao tempo e aos vendavais:
São Vicente da Beira, vila antiga
de foral e glorias medievais.

( in Cantochão de Todavia-  coletânea publicada pelo GEGA, São Vicente da Beira/2005)

Faz parte de POESIA REUNIDA DE MARIA DE LOURDES HORTAS,
livro virtual , editado pela Panamerica Nordestal/Recife,  a ser lançado em agosto próximo.

FONTE DE PÁSSAROS



Alfombra macia de luar e pétalas
assim por certo tua pele
onde me deitaria
abandonada como no chão da infância.
Enche-se de
abelhas
minha alma.
Ao longe os sinos.
Ao longe os barcos.E eu em ti
sozinha às portas do baile
ouvindo os boleros que retornam
esplendor, névoa, perfume, arrepios
vaga-lumes
sedas.

E eu sem ti
enquanto as ondas
uma a uma regressam - inquietas águas.

E eu aqui
enquanto o vento levianamente assobia
invadindo frestas da janela
onde ninguém espero.

E eu aqui
desfolhando as páginas do diário
como se desfolhasse margaridas e esperanças.

De onde nasce este desassossego rutilante
fonte de pássaros
em meu coração?

Maria de Lourdes Hortas

( in FONTE DE PÁSSAROS,1999)


sexta-feira, 25 de março de 2016

NOVA JERUSALÉM UM PALCO DE SETE HECTARES



(publicado na revista ITINERÁRIO, Coimbra/ Portugal , 1969)

Fim dos anos sessenta, no Nordeste do Brasil.
No roteiro do turista que passe por estas plagas , uma visita á cidade de Nova Jerusalém é obrigatória.
Saindo do Recife, ele atravessará a Serra das Russas, passando por Gravatá ( conhecida como a  Suíça pernambucana) e por Caruaru, terra do famoso  ceramista mestre Vitalino, que modelou os tipos característicos da sua terra. Mais alguns quilômetros de cactos e mandacarus e sentirá a fusão do calor e do silêncio, num mundo   exótico  e surpreendente. Pedras agudas formam os montes. A terra é seca e arenosa. Arbustos são a única nota verde-cinza  e o sol cai à vontade sobre toda a paisagem, sem sombra que o detenha: eis Fazenda Nova, lugar cujo mérito, até alguns nos atrás, era possuir águas alcalinas.
O  turista decepciona-se: então, percorreu léguas e léguas para encontrar uma estaçãozinha de águas e um hotel cuja única beleza consiste numa piscina onde andorinhas descem para se banhar?
Prossegue viagem. Envereda  por caminhos de cabras. Chega à muralha de Nova Jerusalém  e contempla a concretização de uma utopia.

A UTOPIA DE PLÍNIO PACHECO

Foi Epaminondas Mendonça quem jogou a primeira semente   do sonho. Leu numa revista que, numa vila da Baviera, durante a Semana Santa, a Paixão de Cristo era encenada nas ruas pelos seus habitantes. A ideia de fazer algo parecido em Fazenda Nova surgiu e não o abandonou. Assim, em 1950, nas tortuosas ruas da pequena cidade, aconteceu   a primeira representação do Drama do Calvário, com um elenco heterogêneo, composto pela família do próprio Epaminondas, e por lavradores  e  carregadores de água da região.
A encenação alcançou um realismo impressionante. Repetida nos anos seguintes, logo se tornou tradição. E, em 1962, mil e duzentos espectadores invadem Fazenda Nova, deslocando-se atrás dos atores que ressuscitam a epopeia cristã.
Já então um plano fantástico se delineava na mente de Epaminondas: reconstituir uma Jerusalém semelhante o mais possível à da época de Jesus, com o objetivo de dar ao espetáculo condições de máxima realidade.
O homem capaz de se embrenhar nessa aventura teria de ser um visionário ou um romântico, um bandeirante ou um bravo. E ele surgiu na pessoa de  Plínio Pacheco : casando-se com uma filha de Epaminondas Mendonça,  logo abandonou a farda da força Aérea Brasileira, despediu-se do barulho das redações dos jornais e foi morar em Fazenda Nova.

DO PROJETO À REALIDADE

Adquirindo o terreno de 70.000m2 ( um terço da área murada da velha Jerusalém), cactos e pedregulhos foram dando lugar a edifícios e casas no estilo da época de Cristo. Com base em pesquisas históricas e plantas feitas, entre outros, por Ana Gonçalves, Walter Macedo, Frederico de Holanda, Ubirajara Galvão e pelo próprio Plínio Pacheco, o projeto que parecia irrealizável foi se transformando em sólida realidade de granito. No momento ( 1969) construíram-se já os palácios de Asmoneus e  o de Herodes, o Forum de Pilatos, o templo, o tribunal de Caifás, o Cinédrio e o cenáculo. Ao lado deles, surgiram os arruados da Via sacra e, nos arredores, réplicas do Monte das Oliveiras, Fonte das Virgens e  Santo Sepulcro.
Este palco de sete hectares – hoje o maior palco ao ar livre do mundo – será fechado por uma muralha de pedra bruta, com sete portas, das quais, uma já concluída, serve de entrada para o recinto.
Plínio Pacheco, que passa o dia numa das casas do arruado da Via Sacra, recebe o visitante,  oferece-lhe água e sucos,  e tem gosto em contar a história de Nova Jerusalém.
Foi aí que me recebeu e  me contou tudo o que escrevo neste texto, explicando que os edifícios construídos não servirão  apenas como palco do grandioso espetáculo anual. Em breve, periodicamente, ali acontecerão  festivais de teatro grego, de dança, de canto coral, de cinema. Também  pretende movimentar cursos, conferencias e exposições. Tudo isso visando tornar Nova Jerusalém um centro atuante de cultura, dinamizado por uma colônia de férias, que aproveitará as próprias casas e palácios da cidade-teatro, propiciando a artistas, jornalistas e gente ligada à cultura uma hospedagem paga, em parte, com exposições de seus trabalhos e promoção de cursos e conferencias.
Por outro lado, o aspecto social não foi esquecido: atualmente uma escola para crianças funciona no palácio de Asmoneus, mas, no futuro, serão instaladas escolas artesanais e de alfabetização de adultos.

O ESPETÁCULO PROPRIAMENTE DITO
Desde aquela representação despretensiosa de 1950 até hoje, o espetáculo cresceu muito. Nele colaboram centenas de pessoas, desde técnicos, atores, um coral de 50 vozes, um conjunto de danças clássicas e extras requisitados entre os habitantes da cidade. Os figurantes, cerca de quinhentos, envergam um guarda-roupa especialmente desenhado e confeccionado para a peça.
O desenvolvimento das cenas tem início na quinta-feira á noite, com o Sermão da Montanha. Os espectadores, por 3 horas, seguem os atores e os extras e a eles se misturam, no Templo, no Cenáculo, no Horto, no tribunal de Caifás.
Na sexta-feira, também à noite, o espetáculo prossegue, desde o Forum de Pilatos até o Calvário, onde se assiste, num ambiente trágico, à crucificação de Jesus, terminando com a grandiosidade da ressurreição.

CONVITE
Quando passar pelo Recife, mesmo que não seja época de Semana Santa, não deixe de atravessar o agreste pernambucano para   conhecer a Nova Jerusalém. Lá encontrará um homem com pele de bronze e pulso de ferro. De bermudas e chapéu de palha, confunde-se com os operários que, indiferentes à inclemência do sol, com suas ferramentas primitivas, arrancam da pedra os capitéis do sonho: trata-se de Plínio Pacheco, uma espécie de profeta moderno, que lhe abrirá a sua Nova Jerusalém, exemplo de persistência, de fé e de milagre.


Nota da autora: da época em que o artigo acima foi escrito, até hoje, muita coisa mudou em  Nova Jerusalém. Por exemplo: atualmente o espetáculo  ocorre num só dia, repetindo-se de quinta a domingo; em geral  tem como ator principal um astro das novelas da  TV, que se renova todos os anos. Abaixo , como atualização, transcrevo  algumas informações, recolhidas no  site  de Nova Jerusalém.

NOVA JERUSALÉM NO SÉCULO XXI
Constituída por nove palcos, em uma área de 100 mil m², cercada por uma muralha de 3.500 m e 70 torres, Nova Jerusalém corresponde a um terço da Jerusalém original, onde Jesus viveu seus últimos dias.

Idealizada e construída por Plínio Pacheco, a cidade-teatro está localizada no distrito de Fazenda Nova, no município de Brejo da Madre de Deus, a 180 km do Recife, capital pernambucana.

Assistido por mais de dois milhões e meio de pessoas, com um público médio diário de 8.000 e conseguindo atingir a marca de 72.000, no aniversário de 40 anos, o maior teatro ao ar livre do mundo encanta turistas nacionais e internacionais pela estrutura e semelhança com a Judéia dos tempos da dominação romana.

Os palcos reproduzem os cenários naturais, os arruados, o Palácio de Herodes, o Fórum de Pilatos, o Templo de Jerusalém e o Cenáculo, constituindo uma obra monumental. Tudo é grandioso, encantador e inesquecível.

O requinte dos detalhes, a beleza plástica e a qualidade impressionam o público que, a cada ano, lota os espetáculos.


OBS: in NOS BASTIDORES DA POESIA ( livro inédito, reunião de textos críticos e outros temas de Maria de Lourdes Hortas)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

DIÁRIO DAS CHUVAS



Havia um pote de barro no quintal da infância. Da altura dos meus seis anos, sua boca media-me a circunferência da cabeça. Caramujos e lesmas se abrigavam na camada de musgo que o fixava ao chão.Pardais e andorinhas, pousando-lhe nas bordas lisas, vinham mirar-se em suas águas. A avó providenciava para que o pote jamais ficasse vazio.No inverno era mais fácil: a chuva do beiral fazia-o transbordar.Mas no verão tornava-se necessário despejar-lhe dentro vários cântaros, um para cada dia de estio. Ao relento, espectador de todas as estações, aparava moedas de sol, estilhaços de relâmpagos, farrapos de neve, pingos de orvalho e lua cheia. Servia para muitas coisas aquele pote:sua água regava as dálias e a salsa dos canteiros. Ali debruçada, tardes a fio  inventei cantigas. Ecoando cântaro a dentro, me parecia muito linda a minha voz, enquanto para mim mesma cantava, sentindo pulsar nas têmporas o coração, o cheiro do barro molhado e as cintilações dos astros guardados lá no fundo me entontecendo. Ao verter a alma naquele caleidoscópio de água cristalina, sem saber estava descobrindo a poesia.

                                                        Maria de Lourdes Hortas

(texto extraído da novela Diário das Chuvas, cap.III. Editora Bagaço, Recife/1995)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

ACERCA DO LIVRO SOLIDÕES DA MEMÓRIA DE DALILA TELES VERAS




  a memória da infância
 é a memória possível
 ( e só à poesia cabe recriar)
             
             Dalila Teles Veras
                                                                                       

Dalila Teles Veras nasceu na Ilha da Madeira em 1946, mas veio para o Brasil, acompanhando a família aos onze anos de idade. Atualmente vive em Santo André - SP. Sem dúvida, trata-se de uma das  mais significativas  escritoras da literatura  lusófona contemporânea, sobretudo porque, sendo imigrantes, pertence à literatura de duas pátrias.
Pela  Alpharrabio Edições, que comanda,   publicou recentemente (  2015)  o livro Solidões da Memória, onde está patente a  condição de quem, como ela muito bem diz nas anotações finais,” ter duas pátrias é como estar em permanente estado de exílio”. 
O título do livro foi inspirado por  um verso de Raul Bopp , citado nas epígrafes iniciais: Saudade é uma revivescência/Solidões da Memória/ coisas que ficaram do outro lado do mar.  
Além do poeta modernista, muitas das afinidades literárias da autora desfilam nas epígrafes  que abrem todos os seus poemas: Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner, Guimarães Rosa, Drummond, e tantos  outros altíssimos nomes. Ao nos revelar os padroeiros  da sua poesia, Dalila confirma que todos os poetas se constroem  não só da sua vocação e sensibilidade, mas de tudo o que leem e vão absorvendo, conscientemente ou não, ao longo do seu itinerário existencial.
Neste memorial, Dalila Teles Veras dá relevo  ao mundo da infância, lugar de impossível regresso:
O regresso
(ainda que da memória seja
o mergulho
vertical e fundo)
é paz impossível.
(in  A Ilha à minha porta amarrada)
 Forte e densa, tecida com a   exatidão das palavras essenciais,  assim é a poesia de Dalila Teles Veras, de contido sentimento , como contida foi a sua Educação pelo silêncio (pg. 23):  
“Rosto vincado/palavras poucas/a avó (...) em silêncio(...) 
as palavras inauditas(...)
em silencio, celebrávamos/o pacto de sangue/
 na pedra firmado, código/para enfrentar sortilégios.”
Esse código de silencio, para enfrentar sortilégios me parece ser a chave da poesia de Dalila Teles Veras. Escassez descrita no poema do mesmo título:
consumo escasso
diversão escassa
existir escasso (...)

Ecos de escassez que , de resto, marcam a sua escrita:
 (...) Na austeridade da arca
 a casa
 reduzida ao essencial.
(in  Bagagem )

No final do livro Dalila nos revela a sua Caderneta de Anotações, datadas de maio de 2012, por ocasião de uma viagem à Ilha da Madeira. Ali encontramos certamente muitas das matrizes dos poemas de “Solidões da Memória”. Todavia, mais do que nessas breves anotações, sentimos  que os  “ rizomas”  da sua profunda  insularidade , ela os foi buscar  no inominável espaço onde guarda as cicatrizes e pegadas da sua história.
Recife, fevereiro, 2016
Maria de Lourdes Hortas
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 CONFIDÊNCIA DA MADEIRENSE
                                                           Dalila Teles Veras
                                      
                                      Alguns anos vivi em Itabira.
                                        Principalmente nasci em Itabira.
                                        Por isso sou triste,
                                        orgulhoso: de ferro.
                                                   Carlos Drummond de Andrade
alguns anos vivi na madeira
principalmente nasci na madeira
por isso sou melancólica, teimosa: urze
de nascença, em luta frente às intempéries
(de solo, do vento e das vagas marítimas)
alma em permanente desassossegar

da madeira nada de material veio comigo
e não há nada que eu possa ofertar
mas da madeira vem este ar atrevido
a língua maldicente e áspera
e o hábito de tudo reclamar
atavismos que a consciência, por vezes
                             rejeita

a madeira não é apenas fotografias
é a memória real dos precipícios
                    e das vertigens
encordoamento
       do que não parecia lembrado
                     mas é
a memória do que não foi
                   mas poderia
e sequer dói




sábado, 22 de agosto de 2015

Discurso proferido no Gabinete Português de Leitura na solenidade de 10 de junho: Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas




O V IMPÉRIO PORTUGUÊS: DE CAMÕES A FERNANDO PESSOA


Aquele movimento hierético da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais  - tudo isso me toldou o instinto como uma grande emoção política.(...) Minha pátria é a língua portuguesa. 

Palavras de Bernardo Soares, semi-heterônimo de Fernando Pessoa, revelando o seu alumbramento,  incontida admiração pelo Padre António Vieira, depois de ter lido a sua História do Futuro.



No ano em curso, o mundo lusófono presta homenagem a Fernando Pessoa, pela passagem dos 80 anos da sua morte e também pelos 100 anos de publicação do primeiro número da revista Orfeu, de cujo grupo Pessoa participou ativamente, como idealizador e colaborador.
Assim, é mais do que justo, darmos a   Fernando Pessoa um lugar especial  em nossa festa,  porque   tanto  Camões  quanto  Pessoa  são símbolos da identidade nacional portuguesa.
A epigrafe que escolhi, lida no início da  minha breve fala, trás uma  frase de Fernando Pessoa, que muitas vezes já ouvimos: “A minha pátria é a língua portuguesa.”  Segundo o ensaista João Gaspar Simões, biógrafo do poeta, “ a primeira tentativa de naturalização de Pessoa adveio após a leitura do Pe. Vieira. Através da História do Futuro, tomou ele conhecimento dos vaticínios anunciados por um poeta popular, Bandarra, o sapateiro de Trancoso, segundo o qual a Portugal estava reservada a missão de realizar o V Império do Mundo.
Fernando Pessoa passou grande parte da sua infância e juventude na África do Sul, para onde foi levado, aos oito anos, acompanhando a sua família , e onde   recebeu toda a base da sua educação e cultura, chegando a ter mais familiaridade com a língua inglesa, na qual escreveu os primeiros poemas.
Ainda segundo Gaspar Simões: ao se deparar com a obra de Vieira, “ foi como se Fernando Pessoa tivesse sido levado a  associar, na mesma idéia , o seu sentimento patriótico e o sentimento de redenção da pátria, que ele sentia profundamente abatida.”
Também os Lusíadas de Camões, tocaram profundamente a alma do jovem poeta que, regressando à pátria, buscava conhecê-la e reconhecê-la como sua.
 Em  1922, apenas com 24 anos, ele escreveu na revista Águia, profetizando sobre um poeta vindouro,  que encarnaria o auge da poesia. E  declarou:  Supra- Camões lhe chamaremos...

Quatro séculos separam Luis Vaz de Camões de Fernando Pessoa.  O grande vate dos LUSÍADAS  nasceu em Lisboa, no século XVI, ano de 1527,   em pleno do  renascimento  europeu,  fase histórica  que reacendeu as  referências da Antiguidade Clássica. Grandes mudanças culturais e sociais estavam em curso.
Portugal  havia conquistado  a sua soberania, após as lutas contra os mouros e Castela. Dotados de espírito aventureiro , os portugueses tinham desvendado os mistérios  dos oceanos, lutando bravamente contra as forças hostis da natureza, abrindo rotas de comércio e expandindo as fronteiras do mundo.
Estava portanto preparado o cenário para ser escrita a grande epopéia nacional.  E foi Camões quem tomou para si o encargo de enaltecer os feitos da sua gente.
Da sua infância, não há qualquer registro. Sabe-se apenas que nasceu numa família de pequena aristocracia. Quanto à sua juventude, tudo leva a crer que, pela forma como pôde executar a sua obra prima,certamente esteve em Coimbra, já então meca da cultura portuguesa.
Camões dominava o latim e o espanhol;  conhecia  os poetas da literatura clássica e estava a par  do que acontecia literariamente na Itália e na Espanha.
Jovem galante, frequentou a corte de D. João III, encantando o paço com a sua poesia lírica, envolvendo-se, segundo reza a tradição, em romances com   algumas damas . Supõe-se que, por conta de um desses capítulos amorosos,  partiu  para a África  como militar   e lá perdeu um olho numa batalha. Viajante contumaz, esteve no Oriente , onde enfrentou uma série de peripécias e adversidades.
Nesse clima de instabilidade e aventura  compôs a obra que o imortalizou:  no íntimo do grande poeta, contra tudo e contra todos, o que pulsava era a poesia. Nos Lusíadas, conseguiu  conciliar, com espantosa harmonia, a sua erudição clássica com a sua experiência de vida. Tanto assim que Jorge de Sena afirmou : “ nada é arbitrário em Os Lusíadas.”
 Dominando com maestria todos os recursos da língua e da versificação, Camões realizou  não só a maior  epopéia portuguesa , mas uma das maiores epopeias do Renascimento.
Quando, em 1570, regressou  a Lisboa, apresentou-se no Paço e recitou os LUSÍADAS a D. Sebastião, ainda adolescente. Entusiasmado, o jovem monarca determinou que a epopeia fosse publicada -  o que ocorreu em 1572 -  e que fosse concedido a Luís de Camões, cavaleiro fidalgo da sua Casa, em paga dos seus serviços prestados na Índia , uma pensão vitalícia. Ao que tudo indica, tal  pensão não foi muito generosa, pois, segundo os seus biógrafos, o poeta  viveu com dificuldades e  encerrou os seus dias,  no dia 10 de junho de 1580,  em extrema pobreza.
O imortal cantor das glórias lusitanas  foi um renovador da língua portuguesa.  Em sua epopeia, com ufanismo declarou:
Cessem do sábio Grego  e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram:
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Netuno e Marte obedeceram.
...........................................................
Cesse tudo o que a Musa antiga canta
Que outro valor mais alto se alevanta.

O reconhecimento d e Camões e sua obra como emblema da nação portuguesa vem de longe. Já em 1580, durante a  monarquia dual de Filipe II , o monarca  espanhol achou por bem prestigiar os  súditos portugueses, mandando traduzir  Os Lusíadas para o castelhano.
No século XIX, Camões  volta a alcançar  grande destaque: Os Lusíadas passaram por várias releituras, sendo mitificados por Almeida Garrett  e Antero de Quental,  expoentes  máximos  do romantismo. E, por ocasião do tricentenário da   sua morte, a  10 de junho de 1880, quer em Portugal, quer no Brasil, foram lhe prestadas grandes homenagens.  Portugal debatia-se entre a legitimidade da monarquia e as revindicações democráticas. Camões – conforme referem os jornais da época- foi apresentado como símbolo de revivescência do seu país,  tornando-se  síntese da nacionalidade.
Mais tarde, durante o Estado Novo ( ou salazarismo), Camões volta à cena: desta vez, tanto o vate quanto os Lusíadas são usados como elementos propagandísticos.
No entanto, só depois de passados três  anos sobre a chamada Revolução dos Cravos, Camões foi associado publicamente às Comunidades Portuguesas, tornando-se o 10 de junho,  O Dia de Camões , de Portugal,   e das Comunidades Portuguesas. A nova ideologia foi reafirmada com a transformação do Instituto de Língua e Cultura Portuguesa em Instituto Camões.
Paralelamente,  criou-se  um novo  sentido de identidade nacional,  englobando  os muitos emigrantes portugueses espalhados pelo mundo. 
Como  já disse neste texto, longos quatro séculos de história e literatura separam Fernando Pessoa de Camões.
Ao apagar das luzes do século XIX ,  a 13 de junho de 1888, no ano Largo de São  Carlos  em Lisboa, nasceu aquele que viria a ser o mais universal poeta português: FERNANDO  ANTÓNIO NOGUEIRA PESSOA . Considerado pelo crítico literário Harold Bloom como o “Witman renascido “, foi  incluído por ele entre os 26 melhores escritores da civilização ocidental, não apenas da literatura portuguesa, mas também da inglesa.
Tanto Camões, quanto Pessoa, se preocuparam com a identidade nacional. Quando Fernando Pessoa surgiu no cenário la literatura portuguesa, na segunda década  do século XX, a poesia camoneana permanecia viva. Pessoa se deu conta disso e, consciente do seu próprio potencial, sonhou ser ele o Supra-Camões.Muitos  estudiosos pessoanos  têm afirmado que a   sua obra foi uma tentativa de superar a obra camoneana. Tal intenção é  visível no único livro que o poeta publicou em vida:  MENSAGEM ( 1934), um ano antes da sua morte.
Existirá alguma semelhança entre OS LUSÍADAS  e a MENSAGEM?
Certamente a semelhança incontestável reside no fato de  as duas obras enaltecerem e glorificarem os fatos mais significativos dos descobrimentos, capítulo maior na História Portuguesa.
Quando Camões escreveu a sua Epopéia, haviam-se passado apenas 50 anos sobre a viagem de Vasco da Gama. Tendo  se apercebido da  importância daquele feito , o grande poeta  centralizou-o na sua narrativa,  aproveitando  o ensejo para contar toda a História de Portugal, engrandecendo os vultos principais e outros feitos heróicos dos  seus compatriotas.
Por seu lado,  Pessoa, sentia-se decepcionado com a realidade portuguesa   do seu tempo: a decadência da monarquia e os novos ideais republicanos. No  íntimo, visionariamente,  procurava uma missão, que pudesse levá-lo a construir novos tempos. Nesse sentido, chegou a escrever  vários textos, entre os quais o opúsculo  “Como Organizar Portugal” onde abordou o decadentismo da época. Segundo o Prof. Alfredo Antunes,  “tal trabalho é um espelho das suas preocupações teóricas para justificar a necessidade de um novo D. Sebastião ou super- Camões, que venha estabelecer o Quinto Império  espiritual.”
Em 1917, pela voz de Álvaro de Campos,  Pessoa anuncia : “ O Quinto Império, o futuro de Portugal – que não calculo, mas sei – está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas trovas de Bandarra, e também nas quadras de Nostradamus. Esse futuro é sermos tudo.Quem, que seja português, pode viver na estreiteza de uma só personalidade, de um só nação, de uma só fé?”
A  MENSAGEM  é uma versão moderna , espiritualista e profética dos  Lusíadas. Contendo poemas de diferentes datas,foi concebido como um  grande Poema.  Segundo o prof. Alfredo Antunes , “  A cadeia de heróis que vão passando pela primeira parte desse seu “ canto maior” a Portugal, arranca da História cada uma das  virtudes que são necessárias para caldear  uma raça e um povo  .(...) Viriato,  Conde D. Henrique, D. Tareja, D. Afonso Henriques, D. Dinis, D. João o Primeiro, D. Filipa de Lencastre são – para usar a  expressão de David Mourão Ferreira  – “ os seculares motivos “ (...)   E assim, a cada herói do passado, faz a súplica necessária para o Portugal do futuro.”
Construida sobre uma estrutura de simbolos e  mitos, a Mensagem convoca os portugueses a prosseguirem na  sua missão histórica, sem jamais esquecer a essencia  da sua Pátria.
Na segunda parte de MensagemMar Português – Pessoa reconhece  a missão dos heróicos  navegadores portugueses, que com audácia, sofrimento e sacrifício, construiram o destino de uma supra-nação.E escreveu um dos mais belos poemas da Mensagem:
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Hoje, o V IMPÉRIO que Pessoa sonhou é a língua portuguesa, a pátria que ele  tanto reverenciava. Não foram apenas os audazes navegadores que implantaram a língua portuguesa  pelo mundo. Dessa feito  participaram também todos os emigrantes que, ao longo dos séculos,  foram  se espalhando pelo globo, deixando a cultura portuguesa nos seus países de acolhimento.
O site do Observatório da Língua Portuguesa ,  aponta para  244. 392  milhões o número de falantes de português  em todo mundo,  sendo a nossa, a quarta língua mais falada, atrás do mandarim, do espanhol e do inglês . Hoje o idioma  português é falado nos cinco continentes, como língua  oficial de 9  países e 14 regiões.
Quero  encerrar as minhas palavras, homenageando os emigrantes anonimos, que deixaram a sua pátria para sempre, repetindo   um dos mais belos versos de Fernando Pessoa:
´´O mar salgado, quanto do teu sal, são lágrimas de Portugal?


 Recife, 10/6/2015 


quarta-feira, 6 de maio de 2015

HOMENAGEM PÓSTUMA À MINHA AMIGA TEREZA HALLIDAY

MORDOMIA CELESTIAL
                                                  Tereza Halliday

"Ela se apresentou numa noite de São João, mostrando o convite pessoal e intransferível. Salpicada de faíscas de chuvas de ouro e prata, agasalhada por xale de fumaça, cheirando a folha de eucalipto e manjericão, resplandeceu à luz da fogueira celestial. Foi sagrada membro do grupo de dançarinos da quadrilha eterna. Balancê!
Recebida por São Pedro, outro grande folião das noites de junho, onde balões e bandeirolas falam dialeto entendido por poucos. Foi levada ao banquete em sua honra - canjica nordestina autêntica- aquela delicatessen, creme de milho verde  finíssimo, cuja receita verdadeira se perdeu na Terra, substituída pela produção em massa e morta pela preguiça de mexer de colher de pau o néctar amarelo clarinho, uma hora de relógio depois de levantar fervura.Serviram-lhe também o bolo de massa de mandioca, leite de coco e especiarias, chamado pé de moleque ( nada a ver com o docinho mineiro do mesmo nome).Receita especial, onde a massa vai ao forno em forma forrada com folha de bananeira.
A sagração ocorreu ao som de baiões, xotes e xaxados, que se esparramavam da sanfona, sem outra caixa de som além do próprio fole, acompanhada apenas por zabumba e triângulo. Recebeu carteira vitalícia de admissão ao forró do céu. Saciada, enfim.
Assim me contou a alma agraciada naquela noite especial. E confidenciou-me a verdade muito além das doutrinas e utopias sobre céu e inferno, na Terra ou alhures: quem não foi tocado pela magia de pelo menos uma noite de São João, vai precisar ralar muito para conseguir mordomias no descanso eterno."

( in RUA DE SANTA GATA,edições Bagaço,2014)

Tereza Lucia Halliday Levy  nasceu no Recife a 19 de dezembro de 1944 e faleceu nesta cidade no dia 24 de abril de 2015. 
Intelectual respeitada, pesquisadora,  professora da UFRPE e UNICAP, foi jornalista, escritora e poetisa. Com vários livros publicados na  área de Comunicação,escreveu belos livros para crianças  e participou de várias antologias de poesia .
No  livro Rua de Santa Gata ( segundo nota "na orelha"do mesmo ) "Tereza Halliday, menina, jovem, mulher e velha, misturou-se nestes textos, compartilhando sua imaginação, pensares e sentires. Presente de aniversário para leitores, quando a aniversariante é ela. Celebração da voz, silêncio, contemplação e sorriso.  "
Fui uma das felizes contempladas por este livro pleno de magia   poucos dias depois do  seu aniversário . É dele que retiro esta significativa página, como forma de lhe prestar uma homenagem, com muito carinho e saudade.
Maria de Lourdes Hortas