quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
DIÁRIO DAS CHUVAS
Havia um pote de barro no quintal da infância. Da altura dos meus seis anos, sua boca media-me a circunferência da cabeça. Caramujos e lesmas se abrigavam na camada de musgo que o fixava ao chão.Pardais e andorinhas, pousando-lhe nas bordas lisas, vinham mirar-se em suas águas. A avó providenciava para que o pote jamais ficasse vazio.No inverno era mais fácil: a chuva do beiral fazia-o transbordar.Mas no verão tornava-se necessário despejar-lhe dentro vários cântaros, um para cada dia de estio. Ao relento, espectador de todas as estações, aparava moedas de sol, estilhaços de relâmpagos, farrapos de neve, pingos de orvalho e lua cheia. Servia para muitas coisas aquele pote:sua água regava as dálias e a salsa dos canteiros. Ali debruçada, tardes a fio inventei cantigas. Ecoando cântaro a dentro, me parecia muito linda a minha voz, enquanto para mim mesma cantava, sentindo pulsar nas têmporas o coração, o cheiro do barro molhado e as cintilações dos astros guardados lá no fundo me entontecendo. Ao verter a alma naquele caleidoscópio de água cristalina, sem saber estava descobrindo a poesia.
Maria de Lourdes Hortas
(texto extraído da novela Diário das Chuvas, cap.III. Editora Bagaço, Recife/1995)
terça-feira, 9 de fevereiro de 2016
ACERCA DO LIVRO SOLIDÕES DA MEMÓRIA DE DALILA TELES VERAS
a memória da infância
é a memória possível
( e só à poesia cabe recriar)
Dalila Teles Veras
Dalila Teles Veras nasceu na Ilha da
Madeira em 1946, mas veio para o Brasil, acompanhando a família aos onze anos de
idade. Atualmente vive em Santo André - SP. Sem
dúvida, trata-se de uma das mais
significativas escritoras da literatura lusófona contemporânea, sobretudo porque, sendo imigrantes, pertence à
literatura de duas pátrias.
Pela Alpharrabio
Edições, que comanda, publicou recentemente ( 2015) o
livro Solidões da Memória, onde está
patente a condição de quem, como ela muito bem diz nas anotações finais,” ter duas
pátrias é como estar em permanente estado de exílio”.
O título do livro foi inspirado por um verso de Raul Bopp , citado nas epígrafes iniciais: Saudade
é uma revivescência/Solidões da Memória/ coisas que ficaram do outro lado do
mar.
Além do poeta
modernista, muitas das afinidades literárias
da autora desfilam nas epígrafes que abrem todos os
seus poemas: Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner, Guimarães Rosa,
Drummond, e tantos outros altíssimos nomes. Ao nos revelar os padroeiros da
sua poesia, Dalila confirma que todos os poetas se constroem não só da sua vocação e sensibilidade, mas de
tudo o que leem e vão absorvendo, conscientemente ou não, ao longo do seu
itinerário existencial.
Neste memorial, Dalila Teles Veras dá relevo ao mundo da infância, lugar de impossível regresso:
O regresso
(ainda que da memória seja
o mergulho
vertical e fundo)
é paz impossível.
(in A Ilha à
minha porta amarrada)
Forte e densa, tecida com
a exatidão das palavras essenciais, assim é a poesia de Dalila Teles Veras, de contido sentimento , como contida foi a sua Educação pelo silêncio (pg. 23):
“Rosto vincado/palavras poucas/a avó (...) em silêncio(...)
as palavras
inauditas(...)
em silencio, celebrávamos/o pacto de sangue/
na pedra firmado,
código/para enfrentar sortilégios.”
Esse código de silencio, para
enfrentar sortilégios me parece ser a chave da poesia de Dalila Teles Veras. Escassez descrita no poema do mesmo título:
consumo escasso
diversão escassa
existir
escasso (...)
Ecos de escassez que , de resto, marcam a sua escrita:
(...) Na austeridade da
arca
a casa
reduzida ao essencial.
(in Bagagem )
No final do livro Dalila
nos revela a sua Caderneta de Anotações, datadas de maio de 2012, por ocasião
de uma viagem à Ilha da Madeira. Ali encontramos certamente muitas das matrizes
dos poemas de “Solidões da Memória”. Todavia, mais do que nessas breves anotações, sentimos que os “ rizomas” da sua profunda insularidade , ela os foi buscar no inominável espaço onde guarda as cicatrizes
e pegadas da sua história.
Recife, fevereiro, 2016
Maria de Lourdes Hortas
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CONFIDÊNCIA DA MADEIRENSE
Dalila Teles Veras
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste,
orgulhoso: de ferro.
Carlos Drummond de Andrade
alguns anos vivi na madeira
principalmente nasci na madeira
por isso sou melancólica, teimosa: urze
de nascença, em luta frente às intempéries
(de solo, do vento e das vagas marítimas)
alma em permanente desassossegar
da madeira nada de material veio comigo
e não há nada que eu possa ofertar
mas da madeira vem este ar atrevido
a língua maldicente e áspera
e o hábito de tudo reclamar
atavismos que a consciência, por vezes
rejeita
a madeira não é apenas fotografias
é a memória real dos precipícios
e das vertigens
encordoamento
do que não parecia lembrado
mas é
a memória do que não foi
mas poderia
e sequer dói
sábado, 22 de agosto de 2015
Discurso proferido no Gabinete Português de Leitura na solenidade de 10 de junho: Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas
O V IMPÉRIO PORTUGUÊS: DE CAMÕES A FERNANDO PESSOA
Aquele movimento hierético da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir
das palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro
vocálico em que os sons são cores ideais
- tudo isso me toldou o instinto como uma grande emoção política.(...) Minha
pátria é a língua portuguesa.
Palavras de Bernardo Soares, semi-heterônimo de Fernando Pessoa, revelando o seu
alumbramento, incontida admiração pelo
Padre António Vieira, depois de ter lido a sua História do Futuro.
No ano em curso, o mundo lusófono presta homenagem a
Fernando Pessoa, pela passagem dos 80 anos da sua morte e também pelos 100 anos
de publicação do primeiro número da revista Orfeu, de cujo grupo Pessoa
participou ativamente, como idealizador e colaborador.
Assim, é mais do que justo, darmos a Fernando Pessoa um lugar especial em nossa festa, porque tanto Camões quanto Pessoa são símbolos da identidade nacional
portuguesa.
A epigrafe que escolhi, lida no início da minha breve fala, trás uma frase de Fernando Pessoa, que muitas vezes já
ouvimos: “A minha pátria é a língua portuguesa.” Segundo o ensaista João Gaspar Simões,
biógrafo do poeta, “ a primeira tentativa de naturalização de Pessoa adveio
após a leitura do Pe. Vieira. Através da História
do Futuro, tomou ele conhecimento dos vaticínios anunciados por um poeta
popular, Bandarra, o sapateiro de Trancoso, segundo o qual a Portugal estava
reservada a missão de realizar o V Império do Mundo.
Fernando Pessoa passou grande parte da sua infância e
juventude na África do Sul, para onde foi levado, aos oito anos, acompanhando a
sua família , e onde recebeu toda a
base da sua educação e cultura, chegando a ter mais familiaridade com a língua
inglesa, na qual escreveu os primeiros poemas.
Ainda segundo Gaspar Simões: ao se deparar com a obra de
Vieira, “ foi como se Fernando Pessoa tivesse sido levado a associar, na mesma idéia ,
o seu sentimento patriótico e o sentimento de redenção da pátria, que ele
sentia profundamente abatida.”
Também os Lusíadas de
Camões, tocaram profundamente a alma do jovem poeta que, regressando à pátria,
buscava conhecê-la e reconhecê-la como sua.
Em
1922, apenas com 24 anos, ele escreveu na revista Águia, profetizando sobre um poeta vindouro, que encarnaria o auge da poesia. E declarou: Supra- Camões lhe chamaremos...
Quatro séculos separam Luis Vaz de Camões de Fernando
Pessoa. O grande vate dos LUSÍADAS nasceu em Lisboa, no século XVI, ano de 1527, em
pleno do renascimento europeu, fase histórica que reacendeu as referências da Antiguidade Clássica. Grandes
mudanças culturais e sociais estavam em curso.
Portugal havia
conquistado a sua soberania, após as
lutas contra os mouros e Castela. Dotados de espírito aventureiro , os
portugueses tinham desvendado os mistérios dos oceanos, lutando bravamente contra as
forças hostis da natureza, abrindo rotas de comércio e expandindo as fronteiras
do mundo.
Estava portanto preparado o cenário para ser escrita a
grande epopéia nacional. E foi Camões quem
tomou para si o encargo de enaltecer os feitos da sua gente.
Da sua infância, não há qualquer registro. Sabe-se apenas
que nasceu numa família de pequena aristocracia. Quanto à sua juventude, tudo
leva a crer que, pela forma como pôde executar a sua obra prima,certamente
esteve em Coimbra, já então meca da cultura portuguesa.
Camões dominava o latim e o espanhol; conhecia os poetas da literatura clássica e estava a
par do que acontecia literariamente na
Itália e na Espanha.
Jovem galante, frequentou a corte de D. João III,
encantando o paço com a sua poesia lírica, envolvendo-se, segundo reza a
tradição, em romances com algumas damas
. Supõe-se que, por conta de um desses capítulos amorosos, partiu para
a África como militar e lá perdeu um olho numa batalha. Viajante
contumaz, esteve no Oriente , onde enfrentou uma série de peripécias e
adversidades.
Nesse clima
de instabilidade e aventura compôs a
obra que o imortalizou: no íntimo do
grande poeta, contra tudo e contra todos, o que pulsava era a poesia. Nos
Lusíadas, conseguiu conciliar, com
espantosa harmonia, a sua erudição clássica com a sua experiência de vida. Tanto
assim que Jorge de Sena afirmou : “ nada é arbitrário em Os Lusíadas.”
Dominando com maestria todos os recursos da
língua e da versificação, Camões realizou
não só a maior epopéia portuguesa
, mas uma das maiores epopeias do Renascimento.
Quando, em
1570, regressou a Lisboa, apresentou-se
no Paço e recitou os LUSÍADAS a D. Sebastião, ainda adolescente. Entusiasmado,
o jovem monarca determinou que a epopeia fosse publicada - o que ocorreu em 1572 - e que fosse concedido a Luís de Camões,
cavaleiro fidalgo da sua Casa, em paga dos seus serviços prestados na Índia , uma
pensão vitalícia. Ao que tudo indica, tal pensão não foi muito generosa, pois, segundo
os seus biógrafos, o poeta viveu com
dificuldades e encerrou os seus
dias, no dia 10 de junho de 1580, em extrema pobreza.
O imortal
cantor das glórias lusitanas foi um
renovador da língua portuguesa. Em sua
epopeia, com ufanismo declarou:
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram:
Que eu canto o peito ilustre
Lusitano,
A quem Netuno e Marte obedeceram.
...........................................................
Cesse tudo o que a Musa antiga canta
Que outro valor mais alto se
alevanta.
O
reconhecimento d e Camões e sua obra como emblema da nação portuguesa vem de
longe. Já em 1580, durante a monarquia
dual de Filipe II , o monarca espanhol achou
por bem prestigiar os súditos
portugueses, mandando traduzir Os
Lusíadas para o castelhano.
No século
XIX, Camões volta a alcançar grande destaque: Os Lusíadas passaram por
várias releituras, sendo mitificados por Almeida Garrett e Antero de Quental, expoentes
máximos do romantismo. E, por
ocasião do tricentenário da sua morte,
a 10 de junho de 1880, quer em Portugal,
quer no Brasil, foram lhe prestadas grandes homenagens. Portugal debatia-se entre a legitimidade da
monarquia e as revindicações democráticas. Camões – conforme referem os jornais
da época- foi apresentado como símbolo de revivescência do seu país, tornando-se
síntese da nacionalidade.
Mais tarde,
durante o Estado Novo ( ou salazarismo), Camões volta à cena: desta vez, tanto
o vate quanto os Lusíadas são usados como elementos propagandísticos.
No entanto,
só depois de passados três anos sobre a
chamada Revolução dos Cravos, Camões foi associado publicamente às Comunidades
Portuguesas, tornando-se o 10 de junho, O Dia de Camões , de Portugal, e das Comunidades Portuguesas. A nova
ideologia foi reafirmada com a transformação do Instituto de Língua e Cultura
Portuguesa em Instituto Camões.
Paralelamente,
criou-se um novo
sentido de identidade nacional,
englobando os muitos emigrantes
portugueses espalhados pelo mundo.
Como já disse neste texto, longos quatro séculos de
história e literatura separam Fernando Pessoa de Camões.
Ao apagar
das luzes do século XIX , a 13 de junho
de 1888, no ano Largo de São Carlos em Lisboa, nasceu aquele que viria a ser o
mais universal poeta português: FERNANDO
ANTÓNIO NOGUEIRA PESSOA . Considerado pelo crítico literário Harold
Bloom como o “Witman renascido “, foi
incluído por ele entre os 26 melhores escritores da civilização
ocidental, não apenas da literatura portuguesa, mas também da inglesa.
Tanto Camões, quanto Pessoa, se preocuparam com a
identidade nacional. Quando Fernando Pessoa surgiu no cenário la literatura
portuguesa, na segunda década do século
XX, a poesia camoneana permanecia viva. Pessoa se deu conta disso e, consciente
do seu próprio potencial, sonhou ser ele o Supra-Camões.Muitos estudiosos pessoanos têm afirmado que a sua obra foi uma tentativa de superar a obra
camoneana. Tal intenção é visível no
único livro que o poeta publicou em vida:
MENSAGEM ( 1934), um ano antes da sua morte.
Existirá alguma semelhança entre OS LUSÍADAS e a MENSAGEM?
Certamente a semelhança incontestável reside no fato de as duas obras enaltecerem e glorificarem os
fatos mais significativos dos descobrimentos, capítulo maior na História
Portuguesa.
Quando Camões escreveu a sua Epopéia, haviam-se passado
apenas 50 anos sobre a viagem de Vasco da Gama. Tendo se apercebido da importância daquele feito , o grande
poeta centralizou-o na sua narrativa, aproveitando o ensejo para contar toda a História de
Portugal, engrandecendo os vultos principais e outros feitos heróicos dos seus compatriotas.
Por seu lado,
Pessoa, sentia-se decepcionado com a realidade portuguesa do seu tempo: a decadência da monarquia e os
novos ideais republicanos. No íntimo,
visionariamente, procurava uma missão,
que pudesse levá-lo a construir novos tempos. Nesse sentido, chegou a
escrever vários textos, entre os quais o
opúsculo “Como Organizar Portugal” onde
abordou o decadentismo da época. Segundo o Prof. Alfredo Antunes, “tal
trabalho é um espelho das suas preocupações teóricas para justificar a
necessidade de um novo D. Sebastião ou super- Camões, que venha estabelecer o
Quinto Império espiritual.”
Em 1917, pela voz de Álvaro de Campos, Pessoa anuncia : “ O Quinto Império, o futuro de
Portugal – que não calculo, mas sei – está escrito já, para quem saiba lê-lo,
nas trovas de Bandarra, e também nas quadras de Nostradamus. Esse futuro é
sermos tudo.Quem, que seja português, pode viver na estreiteza de uma só
personalidade, de um só nação, de uma só fé?”
A MENSAGEM é uma versão moderna , espiritualista e
profética dos Lusíadas. Contendo poemas
de diferentes datas,foi concebido como um
grande Poema. Segundo o prof.
Alfredo Antunes , “ A cadeia de heróis
que vão passando pela primeira parte desse seu “ canto maior” a Portugal,
arranca da História cada uma das
virtudes que são necessárias para caldear uma raça e um povo .(...) Viriato, Conde D. Henrique, D. Tareja, D. Afonso Henriques,
D. Dinis, D. João o Primeiro, D. Filipa de Lencastre são – para usar a expressão de David Mourão Ferreira – “ os seculares motivos “ (...) E assim, a cada herói do passado, faz a
súplica necessária para o Portugal do futuro.”
Construida sobre uma estrutura de simbolos e mitos, a Mensagem
convoca os portugueses a prosseguirem na sua missão histórica, sem jamais esquecer a essencia da sua Pátria.
Na segunda parte de Mensagem
– Mar Português – Pessoa reconhece
a missão dos heróicos navegadores
portugueses, que com audácia, sofrimento e sacrifício, construiram o destino de
uma supra-nação.E escreveu um dos mais belos poemas da Mensagem:
Ó mar salgado,
quanto do teu sal
São lágrimas de
Portugal!
Por te
cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos
em vão rezaram!
Quantas noivas
ficaram por casar
Para que fosses
nosso, ó mar!
Valeu a pena?
Tudo vale a pena
Se a alma não é
pequena.
Quem quer passar
além do Bojador
Tem que passar
além da dor.
Deus ao mar o
perigo e o abismo deu,
Mas nele é que
espelhou o céu.
Hoje, o V
IMPÉRIO que Pessoa sonhou é a língua portuguesa, a pátria que ele tanto reverenciava. Não foram apenas os
audazes navegadores que implantaram a língua portuguesa pelo mundo. Dessa feito participaram também todos os emigrantes que,
ao longo dos séculos, foram se espalhando pelo globo, deixando a cultura
portuguesa nos seus países de acolhimento.
O site do
Observatório da Língua Portuguesa ,
aponta para 244. 392 milhões o número de falantes de
português em todo mundo, sendo a nossa, a quarta língua mais falada,
atrás do mandarim, do espanhol e do inglês . Hoje o idioma português é falado nos cinco continentes, como
língua oficial de 9 países e 14 regiões.
Quero encerrar as
minhas palavras, homenageando os emigrantes anonimos, que deixaram a sua pátria
para sempre, repetindo um dos mais
belos versos de Fernando Pessoa:
´´O mar salgado,
quanto do teu sal, são lágrimas de Portugal?
Recife,
10/6/2015
quarta-feira, 6 de maio de 2015
HOMENAGEM PÓSTUMA À MINHA AMIGA TEREZA HALLIDAY
MORDOMIA CELESTIAL
Tereza Halliday
"Ela se apresentou numa noite de São João, mostrando o convite pessoal e intransferível. Salpicada de faíscas de chuvas de ouro e prata, agasalhada por xale de fumaça, cheirando a folha de eucalipto e manjericão, resplandeceu à luz da fogueira celestial. Foi sagrada membro do grupo de dançarinos da quadrilha eterna. Balancê!
Recebida por São Pedro, outro grande folião das noites de junho, onde balões e bandeirolas falam dialeto entendido por poucos. Foi levada ao banquete em sua honra - canjica nordestina autêntica- aquela delicatessen, creme de milho verde finíssimo, cuja receita verdadeira se perdeu na Terra, substituída pela produção em massa e morta pela preguiça de mexer de colher de pau o néctar amarelo clarinho, uma hora de relógio depois de levantar fervura.Serviram-lhe também o bolo de massa de mandioca, leite de coco e especiarias, chamado pé de moleque ( nada a ver com o docinho mineiro do mesmo nome).Receita especial, onde a massa vai ao forno em forma forrada com folha de bananeira.
A sagração ocorreu ao som de baiões, xotes e xaxados, que se esparramavam da sanfona, sem outra caixa de som além do próprio fole, acompanhada apenas por zabumba e triângulo. Recebeu carteira vitalícia de admissão ao forró do céu. Saciada, enfim.
Assim me contou a alma agraciada naquela noite especial. E confidenciou-me a verdade muito além das doutrinas e utopias sobre céu e inferno, na Terra ou alhures: quem não foi tocado pela magia de pelo menos uma noite de São João, vai precisar ralar muito para conseguir mordomias no descanso eterno."
( in RUA DE SANTA GATA,edições Bagaço,2014)
Tereza Lucia Halliday Levy nasceu no Recife a 19 de dezembro de 1944 e faleceu nesta cidade no dia 24 de abril de 2015.
Intelectual respeitada, pesquisadora, professora da UFRPE e UNICAP, foi jornalista, escritora e poetisa. Com vários livros publicados na área de Comunicação,escreveu belos livros para crianças e participou de várias antologias de poesia .
No livro Rua de Santa Gata ( segundo nota "na orelha"do mesmo ) "Tereza Halliday, menina, jovem, mulher e velha, misturou-se nestes textos, compartilhando sua imaginação, pensares e sentires. Presente de aniversário para leitores, quando a aniversariante é ela. Celebração da voz, silêncio, contemplação e sorriso. "
Fui uma das felizes contempladas por este livro pleno de magia poucos dias depois do seu aniversário . É dele que retiro esta significativa página, como forma de lhe prestar uma homenagem, com muito carinho e saudade.
Maria de Lourdes Hortas
Tereza Halliday
"Ela se apresentou numa noite de São João, mostrando o convite pessoal e intransferível. Salpicada de faíscas de chuvas de ouro e prata, agasalhada por xale de fumaça, cheirando a folha de eucalipto e manjericão, resplandeceu à luz da fogueira celestial. Foi sagrada membro do grupo de dançarinos da quadrilha eterna. Balancê!
Recebida por São Pedro, outro grande folião das noites de junho, onde balões e bandeirolas falam dialeto entendido por poucos. Foi levada ao banquete em sua honra - canjica nordestina autêntica- aquela delicatessen, creme de milho verde finíssimo, cuja receita verdadeira se perdeu na Terra, substituída pela produção em massa e morta pela preguiça de mexer de colher de pau o néctar amarelo clarinho, uma hora de relógio depois de levantar fervura.Serviram-lhe também o bolo de massa de mandioca, leite de coco e especiarias, chamado pé de moleque ( nada a ver com o docinho mineiro do mesmo nome).Receita especial, onde a massa vai ao forno em forma forrada com folha de bananeira.
A sagração ocorreu ao som de baiões, xotes e xaxados, que se esparramavam da sanfona, sem outra caixa de som além do próprio fole, acompanhada apenas por zabumba e triângulo. Recebeu carteira vitalícia de admissão ao forró do céu. Saciada, enfim.
Assim me contou a alma agraciada naquela noite especial. E confidenciou-me a verdade muito além das doutrinas e utopias sobre céu e inferno, na Terra ou alhures: quem não foi tocado pela magia de pelo menos uma noite de São João, vai precisar ralar muito para conseguir mordomias no descanso eterno."
( in RUA DE SANTA GATA,edições Bagaço,2014)
Tereza Lucia Halliday Levy nasceu no Recife a 19 de dezembro de 1944 e faleceu nesta cidade no dia 24 de abril de 2015.
Intelectual respeitada, pesquisadora, professora da UFRPE e UNICAP, foi jornalista, escritora e poetisa. Com vários livros publicados na área de Comunicação,escreveu belos livros para crianças e participou de várias antologias de poesia .
No livro Rua de Santa Gata ( segundo nota "na orelha"do mesmo ) "Tereza Halliday, menina, jovem, mulher e velha, misturou-se nestes textos, compartilhando sua imaginação, pensares e sentires. Presente de aniversário para leitores, quando a aniversariante é ela. Celebração da voz, silêncio, contemplação e sorriso. "
Fui uma das felizes contempladas por este livro pleno de magia poucos dias depois do seu aniversário . É dele que retiro esta significativa página, como forma de lhe prestar uma homenagem, com muito carinho e saudade.
Maria de Lourdes Hortas
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
sábado, 7 de fevereiro de 2015
A RESSONÂNCIA NA POESIA DE JUAREIZ CORREYA
Natural de
Palmares, Pernambuco, Juareiz Correya
nasceu em 1951, mas radicou-se no
Recife desde 1970 , onde, através da sua
editora Nordestal, publicou a revista POESIA, divulgando não só autores nordestinos, mas de vários estados
do Brasil. Vem daí o seu incansável, contínuo
e importante trabalho como promotor cultural, criando e realizando eventos literários e
dedicando-se, sistematicamente, à divulgação da obra de dois importantes
nomes de conterrâneos seus: Ascenso
Ferreira e Hermilo Borba Filho.
Entre 1987 e 2003
voltou a Palmares, onde, à frente da
Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, com o apoio da Prefeitura de
Palmares, realizou significativo trabalho cultural .
A breve
informação biográfica, parece-me necessária para traçar o perfil de Juareiz Correya, cuja vida caminha paralela à sua poesia e vice-versa. Vibrante, tudo o que este
poeta escreve reflete a sua experiência vital : seus poemas são imprevisíveis, e
sua linguagem , visceral.
Estas reflexões
me vêem após a releitura do livro de Juareiz Correya Americanto
Amar America e outros poemas do século 20. - Panamerica Nordestal
Editora,Recife, PE, 2010 –oportuna reunião de tudo o que o autor já
publicou, quer em forma de livro, quer como simples folhetos de cordel, e creio
que mais alguns poemas inéditos até a presente edição.
Sem qualquer
intenção crítica, pois para tal são necessárias ferramentas de que não
disponho, ao traçar estas breves linhas, interessa-me apenas fixar algumas impressões da minha leitura, por me parece importante , de
alguma maneira, divulgar um autor que
tem dedicado toda a sua vida à
poesia, quer como criador, quer como editor.
A sintonia entre
leitor e autor ocorre quando o poema provoca em quem o lê um encontro , ou
seja, um
aprofundamento que vai confirmar a ressonância
a que se refere Gaston Bachelard : “o poema nos toma por inteiro” (...) “como
se, com sua exuberância, o poema reanimasse profundezas do nosso ser”.
Fico pensando: quantas
vezes a leitura de um poema se desdobra em nós numa nova criação? .
O professor Massaud Moisés, crítico e profundo conhecedor da literatura,
já disse que “ a arte literária não se reduz ( ou não deve reduzir-se) a uma
forma banal de entretenimento”. E
prossegue:” (...) mais do que recreação de alto-nível, a Literatura constitui
uma forma de conhecer o mundo e os homens: dotada de uma séria missão ,
colabora para o desvendamento daquilo que o homem, conscientemente ou não,
persegue durante toda a existência”.
Esta definição me parece justa e precisa no caso da poesia de J. Correya. Tudo o que ele escreve é a expressão de sua vida, a superação e a
libertação do seu cotidiano, o reflexo
do seu tempo , e, como consequência, o
registro do ser humano, onde quer que esteja e em que geografia habite.
Veja-se, por
exemplo, este poema:
Amo só o que conheço, nada é perdido.
O bairro onde vivo e seus arredores.
Os homens de hoje, mesmo os que decepcionam,
sem mito e esplendor,
humanamente humanos.
As obras definidas que acabo de ler.
A leitura, não a saudade, da poesia do mundo.
O Ocidente e o Oriente que, na verdade,
existem sob o sol para todos.
Os mais velhos, com quem converso
as horas de suas saudades.
As múltiplas formas da memória,
que não se faz do esquecido.
A língua que falo e as leituras que decifro.
Todos os versos de que me lembro, mesmo por
hábito.
Os amigos que não faltam, porque nunca morrem.
A ilimitada eternidade da Arte.
A mulher que está ao meu lado,
companheira indivisível.
Até mesmo o que não sei, como o xadrez e a
álgebra.
( in
América Indignada Y Poemas da Alegria da Vida
- Panamerica Produções / Nordestal Editora, São
Paulo / Recife, 1991)
Carlos Drummond de Andrade, num dos seus poemas mais
conhecidos, declarou: “Tenho apenas duas
mãos e o sentimento do mundo”. No poema de Juareiz acima transcrito, percebemos que, também ele
, não oculta o seu “
sentimento do mundo”: O bairro onde vivo e seus
arredores. /Os homens de hoje, mesmo os que decepcionam, /sem mito e esplendor,
humanamente humanos.
A imensidão interior do poeta com frequência aflora nos seus poemas. Veja-se, por exemplo, este fragmento do poema Flor que não se cheira, do conjunto Outros Poemas no livro em questão:
(...) e saio de mim e me entrego tanto/vendaval no
coração da cidade/cada vez mais nu e louco e santo/só minha paixão por tudo
arde(...) cada vez mais alto e largo e fundo/navego meu rio, capricho meu
barro/voando meu fogo purifico o mundo.
No pórtico de um
novo século, Juareiz Correya não se deixa embalar pelo marasmo do
pós-modernismo, onde muito pouco aconteceu de renovador na poesia universal.
Lendo sua obra sente-se que ele desafia o seu tempo, fugindo ao tédio de
hábitos e formas rotineiras, sem, todavia, desprezar as vozes dos
grandes e eternos mestres da poesia.
Era nisso também que eu pensava quando falei em ressonância:
porque, pelas estradas de Juareiz Correya, neste seu Americanto Amar América e
outros poemas do século XX,ouço ecos de poetas inesquecíveis (Lorca,
Neruda,Octavio Paz, F. Pessoa, Ginsberg e
tantas outras vozes marcantes) , que têm
contribuído para o canto renovado
de muitos bons poetas contemporâneos: este, inclusive.
(Texto inédito, escrito em Aldeia ,nos arredores do
Recife, 2011)
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
UM CONTO PARA O FIM DO ANO...
CAMISA BRANCA DE FALSO LINHO
Nada mais fácil
do que confundir a cor branca. Camisas brancas, então, piorou. Foi o que
aconteceu neste episódio que vou contar.
A mão,
impaciente, buzinava e o jovem empregado da lavandaria, atarantado, embrulhou a camisa branca de
falso linho junto com o paletó de
cerimonia, igualmente branco, que então se chamava “summer”. A mão impaciente
jogou o pacote no banco detrás.
Em geral, para a
Camisa Branca, aquele tempo, engomado e vazio, em férias do corpo, era o seu
dormir. Ficava incontáveis dias na
gaveta, guardada para as melhores ocasiões e,
quando por fim era desdobrada, o corpo limpo do seu dono a preenchia por completo: os botões
debruçavam-se nas casas e ela sentia-se repleta. Às vezes , num baile, a
namorada do rapaz pincelava o colarinho de batom. E então ela voltava para
a lavandaria que, na verdade, era o seu melhor
programa, literalmente uma estação de águas, com direito a psicanálise,
pois ali se libertava da poeira da vida. No geral ia acompanhada pelo paletó escocês cinza, que o dono escolhera
porque, sendo discreto , poderia usá-lo
mais vezes, sem que as pessoas se apercebessem disso.
Ela e o paletó tinham
muitas afinidades. Iam juntos aos aniversários da família, ao cinema dos
domingos, a eventos culturais e sociais .Apareciam, discretos, comportados, e a
Camisa Branca olhava as suas colegas vermelhas ,verdes, amarelas ou cor de
rosa, confeccionadas em novos tecidos artificiais , helanca e ban-lon, por
exemplo, e sentia-se muito elegante, refinada mesmo, apesar de, no íntimo,
estar consciente de que o seu linho era falso.
De qualquer modo, ela e o paletó, diante das ousadias modernosas,
entreolhavam-se, digníssimos.
Frequentemente, no arame da lavandaria, conhecia outros
paletós. Muitos deles, talvez
importados, sequer a olhavam. Outro, no entanto, mais comuns, em tecido azul ou
bege,balançavam-se alegremente, procurando tocá-la. Aqueles flertes, todavia,
não punham rubores na sua brancura.
Até que um dia,
de sol enevoado,casualmente encontrou-se no arame com um paletó branco de corte
bem diferente do seu velho amigo cinza escocês. Era um Summer e o vento
agitou-lhe as mangas, que a tocaram,
como numa carícia. O Summer desculpou-se polidamente.Explicou que estava
exausto, pois dançara muito na madrugada anterior. E, conversa vai, conversa
vem, o novo amigo revelou que no seu bolso estavam esquecidos uns brincos de
brilhante, que o seu dono retirara das orelhas da namorada. Se pudesse vê-los,
deviam estar misturados com confetes, pois aquele havia sido um baile de reveillon...
Só quando se viu embrulhada com o Summer,
descobriu que ambos pertenciam ao mesmo dono. Mas então, com que camisa havia ido
ele ao baile ? Por que tinha sido exluída dessa emoção?
Dentro do papel
cor de rosa da lavandaria não havia um mínimo de ar. Mas isso não importava
muito, pois sentia-se feliz com a nova companhia. Possivelmente iam estar
juntos muitas vezes. E já podia imaginar-se com a gravatinha preta no
colarinho.
Quando o carro
parou, a mão impaciente apanhou o pacote. Entraram em algum lugar barulhento. O
Summer cochichou: Não é costume haver tanto barulho por aqui ...
Várias portas se
abriram. Até que finalmente uma se fechou com estrondo. A mão rasgou o papel
cor de rosa. Summer foi estendido numa
cadeira. Camisa estava sendo vestida
e,quando o primeiro botão espreitou pela casa, ocorreu um duplo
desapontamento.O dela , pois aquele
quartinho de paredes sujas não era o
ambiente a que estava habituada. Por seu lado, o rapaz que a vestia , exclamou:
Mas esta não é a minha camisa!
Entretanto,
alguém bateu á porta : Depressa, Bonifácio, o movimento hoje é grande. Há
muitos fregueses à espera!
Bonifácio olhou-se
no caco de espelho que estava sobre o armário. Considerou, com desprezo, o
colarinho da camisa. Deu um muxoxo. Mas não havia tempo para investigar a troca
e resolveu vestir o paletó branco, uma vez que não tinha outra roupa à mão.
As mangas do
casaco dobravam-se em adeuses. Ele
puxou-as: Como pode ser isto? Tudo trocado, ora bolas!...
Novas pancadas à
portas:
- Bonifácio, é
para hoje? Desse jeito você vai mal!
Era o seu
primeiro dia de trabalho. Nervoso e
atrapalhado, ao servir o primeiro
freguês, derramou-lhe nas calças molho de peixe. Foi
posto na rua. Furioso, despiu a camisa no quartinho dos fundos do restaurante e
deixou-a amassada a um canto.
No dia seguinte,
o faxineiro encontrou-a. Levou-a para casa e disse ao
irmão, que era pescador: Dá uma lavada e
fica com a camisa para você. É boa para
o mar!
Assim aconteceu.
Camisa Branca viajou muitas vezes com o
pescador, até que uma borrasca fez naufragar
o precário barco que lhe pertencia. Na esperança de que o vento o salvasse, o
pescador esticou a camisa numa vara, transformando-a numa vela. Ninguém sabe
que rumo tomaram, ou se aportaram em
alguma praia.
Maria de Lourdes Hortas
Recife, novembro,
1964
( Conto
encontrado numa pasta entre papéis
antigos).
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