sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

sábado, 7 de fevereiro de 2015

A RESSONÂNCIA NA POESIA DE JUAREIZ CORREYA




Natural de Palmares, Pernambuco, Juareiz Correya  nasceu em 1951, mas  radicou-se no Recife  desde 1970 , onde, através da sua editora Nordestal, publicou a revista POESIA, divulgando não  só autores nordestinos, mas de vários estados do Brasil. Vem daí o seu incansável, contínuo  e importante trabalho como promotor cultural, criando e realizando   eventos literários  e  dedicando-se, sistematicamente,   à divulgação da obra de dois importantes nomes de conterrâneos seus:  Ascenso Ferreira e  Hermilo Borba Filho.

Entre 1987 e 2003 voltou a Palmares, onde, à frente da  Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, com o apoio da Prefeitura de Palmares,  realizou  significativo trabalho cultural . 
A  breve  informação biográfica, parece-me necessária para  traçar o perfil de  Juareiz Correya, cuja  vida caminha paralela à sua  poesia e vice-versa. Vibrante, tudo o que este poeta escreve reflete a sua experiência vital : seus poemas são imprevisíveis, e sua linguagem , visceral.

Estas reflexões me vêem após a releitura do livro de Juareiz Correya  Americanto Amar America e outros poemas do século 20. - Panamerica Nordestal Editora,Recife, PE, 2010 –oportuna reunião de tudo o que o autor já publicou, quer em forma de livro, quer como simples folhetos de cordel, e creio que  mais alguns  poemas inéditos até a presente edição.
Sem qualquer intenção crítica,  pois para tal  são necessárias ferramentas de que não disponho, ao traçar estas breves linhas, interessa-me apenas fixar algumas  impressões da  minha leitura, por me parece importante , de alguma maneira, divulgar um autor que  tem  dedicado toda a sua vida à poesia, quer como criador, quer como editor.

 A sintonia entre leitor e autor ocorre quando o poema provoca em quem o lê um encontro , ou seja,  um  aprofundamento que vai confirmar a ressonância a que se refere Gaston Bachelard : “o poema nos toma por inteiro” (...) “como se, com sua exuberância, o poema reanimasse profundezas do nosso ser”.

Fico pensando: quantas vezes  a leitura de um poema se desdobra  em nós numa nova criação? .
 O professor Massaud Moisés,  crítico e profundo conhecedor da literatura, já disse que “ a arte literária não se reduz ( ou não deve reduzir-se) a uma forma banal de entretenimento”.  E prossegue:” (...) mais do que recreação de alto-nível, a Literatura constitui uma forma de conhecer o mundo e os homens: dotada de uma séria missão , colabora para o desvendamento daquilo que o homem, conscientemente ou não, persegue durante toda a existência”.
Esta  definição me parece  justa e precisa  no caso da  poesia de J. Correya. Tudo o que ele escreve  é a expressão de sua vida, a superação e a libertação do seu cotidiano, o  reflexo do seu  tempo , e, como consequência, o registro do  ser  humano, onde quer que esteja e em que  geografia habite.
Veja-se, por exemplo, este  poema:

Amo só o que conheço, nada é perdido.
O bairro onde vivo e seus arredores.
Os homens de hoje, mesmo os que decepcionam,
sem mito e esplendor,
humanamente humanos.
As obras definidas que acabo de ler.
A leitura, não a saudade, da poesia do mundo.
O Ocidente e o Oriente que, na verdade,
existem sob o sol para todos.  
Os mais velhos, com quem converso
as horas de suas saudades. 
As múltiplas formas da memória,
que não se faz do esquecido.
A língua que falo e as leituras que decifro. 
Todos os versos de que me lembro, mesmo por hábito.
Os amigos que não faltam, porque nunca morrem.
A ilimitada eternidade da Arte. 
A mulher que está ao meu lado,
companheira indivisível. 
Até mesmo o que não sei, como o xadrez e a álgebra. 
( in  América Indignada Y Poemas da Alegria da Vida 
- Panamerica Produções / Nordestal Editora, São Paulo / Recife, 1991)

Carlos  Drummond  de Andrade, num dos seus poemas mais conhecidos,  declarou: “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”. No poema de Juareiz  acima transcrito, percebemos que, também ele , não oculta o  seu  “  sentimento do mundo”: O bairro onde vivo e seus arredores. /Os homens de hoje, mesmo os que decepcionam, /sem mito e esplendor, humanamente humanos.

A  imensidão interior do poeta com  frequência aflora nos seus poemas. Veja-se, por exemplo, este fragmento do poema Flor que não se cheira, do conjunto Outros Poemas  no livro em questão:

(...) e saio de mim e me entrego tanto/vendaval no coração da cidade/cada vez mais nu e louco e santo/só minha paixão por tudo arde(...) cada vez mais alto e largo e fundo/navego meu rio, capricho meu barro/voando meu fogo purifico o mundo.

No pórtico de um novo século, Juareiz Correya não se deixa embalar pelo marasmo do pós-modernismo, onde muito pouco aconteceu de renovador na poesia universal. Lendo sua obra sente-se que ele desafia o seu tempo, fugindo ao   tédio de  hábitos e formas rotineiras, sem, todavia, desprezar as vozes dos grandes e eternos  mestres da poesia.

 Era nisso também  que eu pensava quando falei em ressonância: porque, pelas estradas de Juareiz Correya, neste seu Americanto Amar América e outros poemas do século XX,ouço ecos de poetas inesquecíveis (Lorca, Neruda,Octavio Paz, F. Pessoa, Ginsberg  e  tantas outras vozes marcantes) , que têm  contribuído para o canto renovado  de muitos bons poetas contemporâneos: este, inclusive.

(Texto inédito, escrito em Aldeia ,nos arredores do Recife, 2011)







segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

UM CONTO PARA O FIM DO ANO...


CAMISA BRANCA DE FALSO LINHO                                                                           

Nada mais fácil do que confundir a cor branca. Camisas brancas, então, piorou. Foi o que aconteceu neste episódio que vou contar.
A mão, impaciente, buzinava e o jovem empregado da lavandaria,  atarantado, embrulhou a camisa branca de falso linho  junto com o paletó de cerimonia, igualmente branco, que então se chamava “summer”. A mão impaciente jogou o pacote no banco detrás.
Em geral, para a Camisa Branca, aquele tempo, engomado e vazio, em férias do corpo, era o seu dormir. Ficava incontáveis  dias na gaveta, guardada para as melhores ocasiões e,  quando por fim era desdobrada, o corpo limpo do seu dono  a preenchia por completo: os botões debruçavam-se nas casas e ela sentia-se repleta. Às vezes , num baile, a namorada do rapaz pincelava o colarinho de batom.  E então ela voltava para a  lavandaria que, na verdade, era  o seu melhor  programa, literalmente uma estação de águas, com direito a psicanálise, pois ali se libertava da poeira da vida. No geral ia acompanhada pelo  paletó escocês cinza, que o dono escolhera porque, sendo discreto , poderia  usá-lo mais vezes, sem que as pessoas se apercebessem disso.
Ela e o paletó tinham muitas afinidades. Iam juntos aos aniversários da família, ao cinema dos domingos, a eventos culturais e sociais .Apareciam, discretos, comportados, e a Camisa Branca olhava as suas colegas vermelhas ,verdes, amarelas ou cor de rosa, confeccionadas em novos tecidos artificiais , helanca e ban-lon, por exemplo, e sentia-se muito elegante, refinada mesmo, apesar de, no íntimo, estar consciente de que o seu linho era falso.  De qualquer modo, ela e o paletó, diante das ousadias modernosas, entreolhavam-se, digníssimos.
Frequentemente,  no arame da lavandaria, conhecia outros paletós. Muitos  deles, talvez importados, sequer a olhavam. Outro, no entanto, mais comuns, em tecido azul ou bege,balançavam-se alegremente, procurando tocá-la. Aqueles flertes, todavia, não punham rubores na  sua brancura.
Até que um dia, de sol enevoado,casualmente encontrou-se no arame com um paletó branco de corte bem diferente do seu velho amigo cinza escocês. Era um Summer e o vento agitou-lhe as mangas, que  a tocaram, como numa carícia. O Summer desculpou-se polidamente.Explicou que estava exausto, pois dançara muito na madrugada anterior. E, conversa vai, conversa vem, o novo amigo revelou que no seu bolso estavam esquecidos uns brincos de brilhante, que o seu dono retirara das orelhas da namorada. Se pudesse vê-los, deviam  estar  misturados com  confetes,  pois   aquele havia sido um baile de reveillon...
Só   quando se viu embrulhada com o Summer, descobriu que ambos pertenciam ao mesmo dono. Mas então, com que camisa havia ido ele ao baile ? Por que tinha sido exluída dessa emoção?
Dentro do papel cor de rosa da lavandaria não havia um mínimo de ar. Mas isso não importava muito, pois sentia-se feliz com a nova companhia. Possivelmente iam estar juntos muitas vezes. E já podia imaginar-se com a gravatinha preta no colarinho.
Quando o carro parou, a mão impaciente apanhou o pacote. Entraram em algum lugar barulhento. O Summer cochichou: Não é costume haver tanto barulho por aqui ...
Várias portas se abriram. Até que finalmente uma se fechou com estrondo. A mão rasgou o papel cor de rosa.  Summer foi estendido numa cadeira. Camisa estava sendo vestida  e,quando o primeiro botão espreitou pela casa, ocorreu um duplo desapontamento.O dela , pois  aquele quartinho de paredes sujas não era  o ambiente a que estava habituada. Por seu lado, o rapaz que a vestia , exclamou: Mas esta não é a minha camisa!
Entretanto, alguém bateu á porta : Depressa, Bonifácio, o movimento hoje é grande. Há muitos fregueses à espera!
Bonifácio olhou-se no caco de espelho que estava sobre o armário. Considerou, com desprezo, o colarinho da camisa. Deu um muxoxo. Mas não havia tempo para investigar a troca e resolveu vestir o paletó branco, uma vez que não tinha outra roupa à mão.
As mangas do casaco  dobravam-se em adeuses. Ele puxou-as: Como pode ser isto? Tudo trocado, ora bolas!...
Novas pancadas à portas:
- Bonifácio, é para hoje? Desse jeito você vai mal!
Era o seu primeiro dia de trabalho. Nervoso  e atrapalhado,  ao servir o primeiro freguês, derramou-lhe nas  calças  molho de peixe.   Foi posto na rua. Furioso, despiu a camisa no quartinho dos fundos do restaurante e deixou-a amassada a um canto.
No dia seguinte, o  faxineiro  encontrou-a. Levou-a para casa e disse ao irmão, que era pescador:  Dá uma lavada e fica com a camisa  para você. É boa para o mar!
Assim aconteceu. Camisa Branca viajou muitas vezes  com o pescador, até que uma borrasca fez  naufragar o precário barco que lhe pertencia. Na esperança de que o vento o salvasse, o pescador esticou a camisa numa vara, transformando-a numa vela. Ninguém sabe que rumo tomaram, ou se  aportaram em alguma praia.

Maria de Lourdes Hortas 

Recife, novembro, 1964

( Conto encontrado numa pasta entre  papéis antigos).

domingo, 16 de novembro de 2014

RELEITURAS (II)






TEOREMA

Que nome tem o que em mim flameja
por vezes claro e tão luminoso
outras, tão fundo, que se põe umbroso
que nome tem, em mim, seja o que seja?
Quem equaciona este teorema?
como cifrá-lo, que signo lhe invento?
Vem na cadência do tropel do vento
o repetido som que o emblema?

Ah fogo fátuo, cometa em viagem
alumiando nos breus do contexto
os plenilúnios de outro personagem:
lume verbal, lanterna de romagem
a projetar nas ruas do pretexto
a sombra que me leva na bagagem.
                                                              (in  Relógio d´água, 1985)






LEGADO

Para amanhã e depois, mais tarde
àqueles que ainda gostem de chuva

para habitar enigmas
labirintos e prodígios

para não deixar fugir o espanto
diante das coisas essenciais

para ouvir
o silêncio de Deus

para não me perder de mim:
escrevo.

                                                        (in  Fonte de Pássaros,1999)



MALA

Espécie de mala
a alma
do poeta
porão onde se guarda
tudo o que serve
para a poesia:
cartas por enviar
labirintos de intenções
partituras inacabadas
vertigens inominadas
catedrais de silêncio
mapas indecifrados
eclipses, horizontes
icebergues, vulcões
sonatas de chuva
retratos em sépia
arquivo de auroras
e crepúsculos
maravilha de instantes
tempo avulso
que se escoa e nos leva
na voragem da ciranda.

O que guardo na alma
Abro na poesia:
Nela interrogo a vida
Dia após dia.
                            ( in Rumor de Vento, 2009)


terça-feira, 9 de julho de 2013

Seis poemas de chuva para as águas de julho




 
 

 
 Maria Hortas
da série MEMÓRIAS
acrílico s/tela
0.70 x0.90                                                                 
 
 
 
 
 
 
APASSIONATA
 
De madrugada
andante
o vento
veio 
 assobiando
 para  anunciá-la.
 
Em surdina
mãos de anjos  abriram
a partitura :
acordes, arpejos
 tilintar de  candelabros.
 
Nos teclados  de julho
a sonata da chuva:
 
cascata de cristal
-- apassionata.
 
(inédito, julho/2013)
 

 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
                        VITRAL

 

Nestas sonatas de inverno

cachoeiras pluviais

pluralizam-se os eternos

 dilúvios conventuais:

cisternas de aves retidas

em claustro de pedra e sombra

inventário de outra chuva

que em minha chuva se alonga.

Cursos d´água que reatam

um a um os vendavais

mantos, rendas de arrepios

nos ombros das sombras nuas

sobrepostas nos vitrais.

                                           ( in Relógio d ´Água)

 

 
-
 
 
 
Maria Hortas
Conversas de botequim
Acrílico sobre tela
0.80 x 1.60
 
 
 
 DE CHUVA  quero esta cantiga mansa

por ti deslize como desliza a dança

da chuva  pelo sonho da infância.

 

  De chuva quero esta cantiga terna

em ti se empoce como se guarda eterna

a chuva no escuro da cisterna.

                                                    ( in Flauta e Gesto)

 
 
 
 
ACALANTO

 

Quando a noite passeia pelo jardim a brisa

traz  de volta a infância no seu coche noturno.

E no sono regressa a dolente cantiga

contradança de inverno

pandeiretas de chuva.

O marulho do bosque

conversas de arvoredo

de um mundo sem pressa

hibernando em segredo.

Negra molhada noite

onde respira a vida

contradança de inverno

pandeiretas de chuva.

                                         ( in  Fonte de Pássaros)

 

 

PLUVIAL

 

Vergastando a noite

Vem a chuva

ventania
 
subitamente abrindo

todas as janelas

do meu coração.

                                ( in   Fonte de Pássaros)
 
 

 
Maria Hortas
acrílico s/ tela
da série JARDINS
0.60x0.80
 
 
 

 

 

                                      

CÍCLICO

 

De vez em quando um vendaval me visita

e arreda as telhas do telhado:

estrelas me espreitam e bentevis me acordam.

                                                                                                   ( in  Fonte de Pássaros)

 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

HISTÓRIA DE NATAL




Com alvo cendal, Maria coberta.
- Acorda, Maria - José a desperta.

O burrinho-monge
paciente aguarda.
- Acorda, burrinho - José o encilha.
As heras e o musgo lhe arranca do alforge.

Põem-se a caminho  Maria e José.
Procuram um longe para descansar.
Há tantos Natais procuram um longe:
Um Deus quer nascer e não há lugar.

Outra vez a gruta emerge e degela.
os pastores, cândidos, ocupam nos montes
o lugar de sempre:
à espera do Anjo
que desce da estrela...

Seguem os viajeiros
Maria e José:
procuram um longe
para descansar.

Os homens fecharam as portas do mundo:
um Deus quer nascer
e não há lugar.


( releitura de um poema publicado em Fio de Lã,1979/Recife

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

VISITA À CASA DA MINHA AVÓ FELICIDADE



Em 1965, depois de concluir o curso de Direito pela UFPE, parti para Lisboa, a fim de receber o prêmio do Secretariado Nacional de Informação pelo meu primeiro livro,  Aromas da Infância, publicado pelas Edições Panorama.
Entretanto, já que estava em Portugal, decidi viajar a Trás -os- Montes, para visitar minha avó paterna.
Fiz uma pequena mala,  com apenas o necessário para três dias. A viagem  foi cheia de peripécias. Na estação de Santa Apolônia peguei o comboio matinal com destino ao Porto.  Lá , tive que descer e apanhar outro trem, desta vez até a cidade da Régua. Para colocar e tirar a mala do bagageiro, que eu não alcançava, tinha de pedir ajuda. O meu sotaque trazia bom humor aos cavalheiros , que  sorriam e me socorriam. Na Régua comprei bilhete para Vila Real, entrando num comboio pequenino, Maria Fumaça autêntico, com bancos rangentes, de estrutura em ferro e almofadas altas, cobertas com panos bordados nas cabeceiras.  Sentei-me ao lado de um jovem, agasalhado na tradicional capa negra de estudante. Logo soube que cursava Direito em Coimbra e ia passar uns dias em casa : desta vez não tive a mínima dificuldade com a minha pequena mala.
Chegando a Vila Real, procurei um táxi   e logo cheguei à aldeia de Tojais, terra do meu pai. Avó Felicidade,  já avisada da minha chegada, tinha preparado um quarto para mim  e recebeu-me com expressão  indefinida, entre desilusão e alegria. A decepção, disse-me ela mesma   depois,  devia-se à minha apresentação simples e despojada. Era fim de abril, eu usava um vestido de lã de xadrez, que minha mãe fizera, depois de, no Recife, dar voltas à cidade  procurando  um tecido quente. Em Lisboa eu havia  comprado um casaco esporte, de feltro  verde escuro, muito quentinho.Sentia-me bem dentro dele, era  o meu melhor agasalho. Calçava  botas de cano curto e salto baixo. Não usava joias, apenas o anel de formatura e talvez um fiozinho de ouro no pescoço, invisível debaixo da roupa.
Vovó esperava uma senhora doutora à moda portuguesa, vestida  de saia e casaco, como lá se dizia, um  tailleur clássico, com   blusa de seda, colar de pérolas, casaco comprido, saltos altos, brincos nas orelhas, enfim, uma dama de impor respeito, à antiga moda portuguesa.
Eu contrariava esse figurino. Daí a desilusão da família da aldeia, já esperando os comentários desairosos da vizinhança.
O marido da tia Alzira, única irmã do meu pai , foi muito simpático, e os meus primos, Fernando mais ou menos da minha idade e  OSdois mais novos, Luís e Francisco,  cercaram-me sempre, do início ao fim da minha visita. Havia três primas mocinhas, Prazeres, Conceição e uma xará, Lourdes, mas essas ficavam por casa, não me acompanhavam aos passeios pelos campos naqueles radiosos e ensolarados dias de primavera.
 O ponto alto da visita foi o domingo. Havia uma festa no povoado, com  bailarico  na eira. Os meus primos apressaram-se em me convidar. Foi uma tarde inesquecível, dancei sem parar,  não só com os primos, mas  com outros rapazes da aldeia, que  disputavam entre si uma dança com a menina do Brasil. De volta a casa, minha avó não se conteve: uma senhora doutora, que não se dava o valor, a dançar na eira com lavradores…Falou também da minha aparência simples e  imprópria  na minha condição…  E foi aí que eu soube da desilusão que lhe dera  à chegada.
Voltei para Lisboa no dia seguinte, refazendo todo o percurso. Ao me despedir de vovó Felicidade, já com a minha bagagem na mala do táxi, ela lembrou-se de me oferecer  uma sacola  de rede, dessas  que  então se usavam, rede de náilon, e ,dentro  dela, um pacote de papel com nozes .
- Não precisa  se incomodar , Vovó…
-Leva filha, são ótimas essas nozinhas…
Como recusar?
Na estação de Vila Real fui informada que o comboio para a Régua estava atrasado.  Eram cerca de dez horas e o trem só chegaria por volta do meio dia. Sentei-me à espera num banco da gare, a malinha ao lado, a bolsa a tiracolo e o bendito pacote das nozes na mão. Estava frio. Depois de alguma relutância, pois nunca entrara sozinha num restaurante, decidi ir até o Café da estação, para  matar o tempo e tomar alguma coisa que me aquecesse,  talvez um chocolate quente   … Entrei devagar, querendo passar despercebida, o que não consegui, pois a porta rangeu e não havia uma única mulher no recinto. Todos os homens se voltaram , olhando-me  sem a mínima cerimônia.  Sentei-me na mesa mais próxima  da porta, ainda cheia de cautelas, levantando a cadeira,para não   a arrastar, pousando a mala, tudo com o maior cuidado, para não chamar a atenção. Foi aí que, pousando o pacote das nozes na cadeira ao lado da minha, o  dito cujo rebentou, espalhando nozes para todos os lados. Foi uma desordem geral, todos abaixados, nozes vão, nozes veem, e entregando-as  para mim, e eu morta de vergonha, tentando ajeitar a pequena sacola, enfim, uma cena de comédia, que nunca  esquecerei.

(Capítulo do  meu livro de memórias As Casas do Destino, ainda não concluído.)