quarta-feira, 24 de maio de 2017

Diário de Aldeia



 A rosa da manhã  desfolha-se  luminosa
diluindo o  silencio 
sobre a noite de chuva.
            *
Noite a fora
o flamboyant contou  à chuva sua história
e  ela a  semeou na relva do jardim.
             *
 A cerca de jasmins escorre chuva
 perfume intenso acordando  o sol.
              *

comentário do poeta pernambucano José Terra

querida Lurdinha, acabei de acessar seu blog, passei uns 20 minutos pra colocar minha opinião e não consegui...
eis o comentário que fiz dentro do poema " revisitação":
"Belo poema, Lurdinha!
 ele retrata bem a sua poesia
 lírica e livre como uma rosa e uma primavera
 e como sempre, traz o traço marcante de sua linguagem:
 a elegância.
 Que seu blog tenha vida longa
 assim como tem a sua poesia
 Parabéns pela simplicidade e beleza! "
 do seu leitor e fã
 José Terra

HOMENAGEM AO POETA MAURO MOTA


No  centenário do nascimento de  Mauro Mota ,  (16 de agosto de 1911),  deixo aqui registrada a minha homenagem a esse grande poeta pernambucano da Geração 45.
Tive o prazer  e a honra de conhecê-lo no   final dos anos setenta, quando comecei a aparecer nas rodas literárias do Recife. Mauro gostava de  frequentar o Clube Alemão, na Estrada do Encanamento, entre  Casa Amarela  e Parnamirim. Em certos dias da semana, ao  fim da tarde , lá se encontrava com outros poetas e escritores.  E foi numa desses  encontros  de poesia que o conheci.  Depois, algumas  vezes , cruzei com ele  na rua do Imperador, o poeta  a caminho do Arquivo  Público,( onde era Diretor),  e eu do Gabinete Português de Leitura,    que Mauro Mota   frequentou assiduamente.   Mais tarde, deu-me  a  alegria de  escrever, um  breve  mas valioso comentário  acerca da minha poesia  , no Diário de Pernambuco.
Mauro Mota faleceu no dia 22 de novembro de 1984. Nesse dia estava eu  em  Juiz de Fora (MG), para assumir o meu lugar de sócia correspondente na Academia  de Letras  daquela cidade. No início da sessão, prestei-lhe uma singela  homenagem, tomando-o como meu padrinho e recitando uma das suas belas elegias.
Mauro Mota foi membro das Academias Brasileira e Pernambucana de Letras  ( sendo, desta última, presidente durante vários anos).
Sua  obra atravessou fronteiras, com poemas traduzidos em inglês, italiano e  espanhol.
Da “Antologia  Didática de poetas pernambucanos” (1988, org. por Ézio  Rafael , Cremilda  de Matos e Izabel M. da Silva ), transcrevo o  trecho  que se segue e, a seguir, o poema referido no mesmo:
Poeta profundamente identificado com a paisagem, as ruas, os costumes e os valores de sua terra, procurou, no entanto, numa simples descrição de uma rua, como a Rua do Crespo, por exemplo, dar-lhe sempre uma transcendência lírica universal”.
RUA DO CRESPO (1870)
( Em desenho de Scklappritz)
                              MAURO MOTA
Lojas  vestindo anáguas:
As marquises de pano.
Dois cachorros sem dono
Mordem o primeiro plano.

Um soldado a cavalo
O que tanto vigia?
Ah, se prender pudesse
Esse tempo e esse dia!

Agitam-se as parelhas
Ao  sinal do boleeiro.
Para onde a diligencia
Conduz os passageiros?

Onde estão os meninos
Daqui, que não  escutam
 O pregão das escravas
Com sequilhos e frutas?

Os lampiões em fila
São, de longe,  pedestres
Magros, andando  retos
Para a igreja no fundo.

( Um homem  prevenido
Abre  o seu guarda-roupa).
Vem caindo a neblina
Das varandas na rua.

(in Antologia Didática de Poetas Pernambucanos )

LEITURAS



 


AS VIAGENS GERAIS DE CELINA DE HOLANDA



Viagens Gerais, poesia

Celina de Holanda

Fundarpe / Cepe

Recife, 1995, 370 pgs.



Desde  O Espelho e a Rosa ( estréia,1970), até Afago e Faca ( inédito por vários anos e agora publicado nesta coletânea), a obra de Celina de Holanda vem se construindo sobre as premissas que lhe deram origem: a luz e a sombra, o jardim e o interior, o consciente e o inconsciente, a intuição e o conhecimento. Por outras palavras: sobre o universo mágico do Engenho Pantorra, onde viveu a infância, entre as histórias dos pretos velhos e os livros da biblioteca da casa, sempre atualizada:



Chego às janelas da noite

Meus olhos buscam o que era (...)



O poema de Celina que serve de pórtico ao livro não poderia ter sido melhor escolhido, pois é também uma espécie de mapa que, à partida  para estas Viagens, desvela ao leitor  as gerais intenções das mesmas: 



Viajo pelos livros que faço

Mas sempre torno

Para  escreve-los

Onde a vida é uma menina

Chorando

Entre moitas.



A afirmativa da autora faz-nos concluir que, nela, a escrita, mais do que um mecanismo lírico de regresso ás origens, é a própria forma de subverter os limites cronológicos: escrever é voltar ao antigo cenário bucólico,



... onde havia as águas caindo

 na rampa da cachoeira

parecendo lençol branco

 por entre espumas fugindo(...)

 passando rente na mata

 onde gritava o pavão (...) pág.95.



Nesse alumbramento das águas despencando em vertigem, abismo de espuma fugitiva, a poesia a tocou, escolhendo-a para a sina de dizer os sentimentos. Na verdade, a poesia chegou à vida de Celina com a naturalidade com que, pela manhã, chegavam os pássaros às  varandas da casa da infância. Varandas que, de resto, também se abriam para o poço fundo das suas inquietações:



Um espelho e seus dois lados

Réptil e pássaro

O que somos.(...)

Para onde essas rotas de vôo

Se abrem e se apagam?

Dessa vivencia telúrica da zona da mata pernambucana e, por certo, da convivência com o chão de barro plasmável ,no qual moldou seus versos, lhe ficou o gosto pelo simples e essencial:



Que tudo em si lembrava

Madressilvas

Malvas cheirosas

Verdes moitas

Manhãs

Frescor e orvalho.



Luminosa, com o despojamento e a grandeza das pequenas coisas, a poesia de Celina de Holanda brota com a naturalidade das fontes -  espontaneidade    que não é fácil alcançar. Um poeta espontâneo português, Manuel da Fonseca, confessa: ”Ser espontâneo dá-me muito trabalho”. Isso porque, a  simplicidade do texto poético não se confunde com pobreza ou acaso. Na  leitura desta recolha da obra de Celina, percebe-se que ela conseguiu harmonizar a sensibilidade e a percepção com um sexto sentido estético, equipamentos que, mesmo fazendo parte da bagagem genética do poeta, só se aprimoram com leitura e exercício da escrita, somados ao sábios filtros da vivencia e do tempo.

Quanto à  temática da   sua  poesia, o título de um dos seus últimos livros  já referido – Afago e Faca – é  metáfora e síntese. Sem dúvida, a trajetória da poetisa tem se firmado sobre essas duas bem definidas vertentes. Solidários,

 o tema social ( faca) e o tema afetivo ( afago) se entrecruzam continuamente. Assim, sem conseguir compactuar com a injustiça social, ou com o desconforto emocional diante de uma realidade que agride os seus princípios cristãos, Celina toma a palavra, com energia e veemência:



Ouço o povo numeroso de Deus.

(...) Ouço as portas.

É o clamor do povo de Deus, abrindo-as. (pág.190)



Todavia, a  meu ver, a  grande força da sua poesia acontece nos poemas de tom elegíaco: aí cresce e se dilata, despindo-se do circunstancial e ultrapassando  limites geográficos  e temporais:



Tudo já aconteceu. Coloca a insígnia

(primado do sinal) sobre o meu peito

E um penso de amor sobre esta chaga.

Escuta o pássaro

Rolando

Como um jornal velho, rasgado,

A asa da ascensão cortada. Sua beleza

Guardarei sobre o meu corpo

Como um fruto

A que se tira a casca.

Mas

Dá-me um pouco da tarde onde ficamos.

                                                                                       Maria de Lourdes Hortas



(Publicado no jornal literário O PÃO, Fortaleza/Ceará, junho,1996)


CELINA DE HOLANDA, *Cabo,PE.15 de junho de 1915
                                           + Recife,1999


 

























  



























  






(para um livro de ensaios, talvez sob o título LEITURAS DIVERSAS E OUTROS TEXTOS)

AS VIAGENS GERAIS DE CELINA DE HOLANDA

Viagens Gerais, poesia
Celina de Holanda
Fundarpe / Cepe
Recife, 1995, 370 pgs.

Desde  O Espelho e a Rosa ( estréia,1970), até Afago e Faca ( inédito por vários anos e agora publicado nesta coletânea), a obra de Celina de Holanda vem se construindo sobre as premissas que lhe deram origem: a luz e a sombra, o jardim e o interior, o consciente e o inconsciente, a intuição e o conhecimento. Por outras palavras: sobre o universo mágico do Engenho Pantorra, onde viveu a infância, entre as histórias dos pretos velhos e os livros da biblioteca da casa, sempre atualizada:

Chego às janelas da noite
Meus olhos buscam o que era (...)

O poema de Celina que serve de pórtico ao livro não poderia ter sido melhor escolhido, pois é também uma espécie de mapa que, à partida  para estas Viagens, desvela ao leitor  as gerais intenções das mesmas: 

Viajo pelos livros que faço
Mas sempre torno
Para  escreve-los
Onde a vida é uma menina
Chorando
Entre moitas.

A afirmativa da autora faz-nos concluir que, nela, a escrita, mais do que um mecanismo lírico de regresso ás origens, é a própria forma de subverter os limites cronológicos: escrever é voltar ao antigo cenário bucólico,

... onde havia as águas caindo
 na rampa da cachoeira
parecendo lençol branco
 por entre espumas fugindo(...)
 passando rente na mata
 onde gritava o pavão (...) pág.95.

Nesse alumbramento das águas despencando em vertigem, abismo de espuma fugitiva, a poesia a tocou, escolhendo-a para a sina de dizer os sentimentos. Na verdade, a poesia chegou à vida de Celina com a naturalidade com que, pela manhã, chegavam os pássaros às  varandas da casa da infância. Varandas que, de resto, também se abriam para o poço fundo das suas inquietações:

Um espelho e seus dois lados
Réptil e pássaro
O que somos.(...)
Para onde essas rotas de vôo
Se abrem e se apagam?
Dessa vivencia telúrica da zona da mata pernambucana e, por certo, da convivência com o chão de barro plasmável ,no qual moldou seus versos, lhe ficou o gosto pelo simples e essencial:

Que tudo em si lembrava
Madressilvas
Malvas cheirosas
Verdes moitas
Manhãs
Frescor e orvalho.

Luminosa, com o despojamento e a grandeza das pequenas coisas, a poesia de Celina de Holanda brota com a naturalidade das fontes -  espontaneidade    que não é fácil alcançar. Um poeta espontâneo português, Manuel da Fonseca, confessa: ”Ser espontâneo dá-me muito trabalho”. Isso porque, a  simplicidade do texto poético não se confunde com pobreza ou acaso. Na  leitura desta recolha da obra de Celina, percebe-se que ela conseguiu harmonizar a sensibilidade e a percepção com um sexto sentido estético, equipamentos que, mesmo fazendo parte da bagagem genética do poeta, só se aprimoram com leitura e exercício da escrita, somados ao sábios filtros da vivencia e do tempo.
Quanto à  temática da   sua  poesia, o título de um dos seus últimos livros  já referido – Afago e Faca – é  metáfora e síntese. Sem dúvida, a trajetória da poetisa tem se firmado sobre essas duas bem definidas vertentes. Solidários,
 o tema social ( faca) e o tema afetivo ( afago) se entrecruzam continuamente. Assim, sem conseguir compactuar com a injustiça social, ou com o desconforto emocional diante de uma realidade que agride os seus princípios cristãos, Celina toma a palavra, com energia e veemência:

Ouço o povo numeroso de Deus.
(...) Ouço as portas.
É o clamor do povo de Deus, abrindo-as. (pág.190)

Todavia, a  meu ver, a  grande força da sua poesia acontece nos poemas de tom elegíaco: aí cresce e se dilata, despindo-se do circunstancial e ultrapassando  limites geográficos  e temporais:

Tudo já aconteceu. Coloca a insígnia
(primado do sinal) sobre o meu peito
E um penso de amor sobre esta chaga.
Escuta o pássaro
Rolando
Como um jornal velho, rasgado,
A asa da ascensão cortada. Sua beleza
Guardarei sobre o meu corpo
Como um fruto
A que se tira a casca.
Mas
Dá-me um pouco da tarde onde ficamos.

(Publicado no jornal literário O PÃO, Fortaleza/Ceará, junho,1996)




  




  







  






Lampejos poéticos de Maria de Lourdes Hortas









Lampejos poéticos de Maria de Lourdes Hortas *


                                    por Fernando Braga, poeta maranhense 
            

Maria de Lourdes Hortas** é uma escritora portuguesa de boa cepa, que, sempre, generosamente, em meio às boas notícias, remete para os meus pensares, a revista “Encontro”, órgão informativo e literário do Gabinete Português de Leitura, de Pernambuco, publicação que sensivelmente dirige fazendo-a distribuir para os países de língua portuguesa. Essa revista, a qual já tive a oportunidade de publicar um excerto de meu ensaio sobre Bocage, o maior sonetista ibérico do século XVIII, já me proporcionou, também, a oportunidade de sentir, por outros ângulos, as genialidades de Camilo, de Eça, de Antônio Nobre, de Mário de Sá-Carneiro, de Miguel Torga e de tantos outros luminares de Portugal continental, assim como poetas modernos de Angola, Moçambique, Macau, Timor, São Tomé e Príncipe, juntamente com uma gama de intelectuais de primeira linha da Ilha da Madeira.
Estes lampejos sobre a poética (muitas vezes em prosa) de Maira de Lourdes Hortas foge, desta vez, às regras epistolares - e que já vão longe – para alguns mergulhos não tão densos, como mereciam, sobre o alimento espiritual dessa minha estimada amiga, colocação que aqui, obviamente, não vem ao caso.
No clarear de uma prosa ou de um verso dessa escritora, corporifica-se em epígrafe, o constelado Fernando Pessoa, através dos sentimentos de Ricardo Reis, quando na abertura de certas confissões, Maria de Lourdes diz que aquelas são “como as pedras na orla dos canteiros”. Falo do livro da minha amiga lusa “Adeus, Aldeia”, editado em Vila da Trofa (Portugal), que além de ser um belíssimo livro no aspecto gráfico (e lá se trabalha muito bem neste ofício), é um sentimental depoimento de quem sente ficar a distância do velho cais de pedras, ou das areias de ouro do Tejo, amores aldeãos como aqueles contados pela maioria dos autores lusitanos quando saem de suas freguesias, pedaços de vidas ainda a se edificar, e o aconchego e costumes de uma aldeia, como talvez seja São Vicente da Beira (Província de Castelo Branco), onde nasceu Maria de Lourdes Hortas, emigrada um dia para o Brasil, desembarcando em Recife, para ser outorgada como a amais pernambucana das portuguesas nas terras de Gilberto Freyre e de João Cabral de Melo Neto.
Há tempos, Maria de Lourdes mandou-me o livro “Diário das Chuvas”, uma publicação das edições “Bagaço” (Recife 1995), prêmio Fernando Chinaglia, concedido pela União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, em 1981. É o segundo momento de uma trilogia, como ela própria explica, a envolver uma trama bem-aventurada entre Gabriel e Tâmara. “Ele já me deitou por terra e suas mãos prendem-me os pulsos, agora sei o que é plenitude”. Ou ainda: “Lembrei-me do livro onde um grego dizia que as mulheres, para estarem felizes, precisam sentir-se desejadas”. O livro apesar de escrito em bela prosa tem uma construção poética, que a bem da verdade, há tempos não lia: “Minhas semanas têm apenas os dias em que te vejo”. É por aí!
Depois recebi a “Dança das Heras”, uma também belíssima publicação lisboeta, quase que artesanal, produzida nas oficinas do editor e também artista José Manuel Capêlo. Este livro prendeu-me o tempo. No primeiro verso do poema “Revoada”, de Maria de Lourdes é de um alcance extraordinário, quando diz de uma maneira simples e profunda: “Em alguma praça de mim um sino para reinventar um tempo antigo”, para compor em síntese o que passou, com toda uma força criadora: “Faz-de-conta que o tempo é uma varanda”. Eis tudo!
            Como boa portuguesa, a sentir as correntes marítimas nas veias, e no coração uma carta de marear, Maria de Lourdes Hortas simboliza como órfã “de um sonho suspenso”, o “azul além do azul/ águas mais fundas/ um mar dentro do mar.”.
 Já ditos no início, dos sentimentos que ficam a distância do velho cais de pedras, ou nas areias de ouro do Tejo, Maria de Lourdes em “Acto de Fé” (sic), ratifica minha assertiva quando exclama saudosa que ficou para trás o “êxtase da infância esperando-me na esquina”.
            Enquanto Fernando Pessoa fez imortalizar Alberto Caeeiro, um de seus alteregos, ao dizer “que o rio da minha aldeia não faz pensar em nada”, a minha parceira de sentimentos e de ofício, se é que posso chamá-la assim, burila docemente um “Desocultar as Fontes” que “se espreguiça um rio primitivo que recita as lendas da construção da aldeia’. Uma coisa é pensar e outra é sonhar. Como aqui foram envolvidos dois dos mais queridos heterônimos do imortal poeta de “Mensagem”, com Caeeiro fica a primeira premissa: “Há metafísica bastante em não pensar em nada”, justificando que “o espelho reflete certo; não erra porque não pensa. Pensar é essencialmente errar. Errar é essencialmente estar cego e surdo”. Com esses versos de Maria de Lourdes, diríamos que há metafísica bastante em idear sonhos. Para nos socorrer depressa nessa sentença, evocamos Ricardo Reis para a segunda proposição, na qual enfatiza: “Severo narro. Quando sinto, penso. Palavras são idéias”. Simplesmente um paradoxo provocado ou um enlace de idéias contrastantes?
E ainda sobre o criador de “Odes”, com o qual abrimos este dedo de prosa, por força das confissões da escritora, quando o chama a dizer: “das pedras na orla dos canteiros”, deixaremos para que siga “rumo aos acasos do sol”, o verso seguinte àquele, em que trocamos, por conveniência de fecho destes apontamentos, apenas um advérbio por outro, com o grifo nosso: “O fado nos dispõe e por cá ficamos”.
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* Publicado in Opinião, Jornal O Estado do Maranhão, 13.11.97

**Maria de Lourdes é a diretora da Revista “Encontro”, órgão de divulgação do Gabinete Português de Leitura de Pernambanco [Recife], onde tenho a honra de ser um dos colaboradores. Para minha grande honra, foi Maria de Lourdes Hortas que escreveu a contracapa do meu livro de poemas “O Puro Longe”, publicado em 2012.        


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

site da Panamerica Nordestal. Panamerica Livraria



Para ter acesso ao livro eletrônico POESIA COMPLETA DE MARIA DE LOURDES HORTAS , acesse o site da Panamerica Nordestal - http://www.panamerica.net.br - e mantenha contato com a direção editorial (Juareiz Correya, escritor e editor) .


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017






O meu livro eletrônico  POESIA REUNIDA DE MARIA DE LOURDES HORTAS, organizado por Juareyz Correya, lançado em dezembro de 2016  no Recife   ( vide convite acima ),  está disponivel  para aquisição na livraria virtual da editora Panamérica, que realizou o e-book.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

DIÁRIO DAS CHUVAS

 CAPITULO 41.


Que fantasmas se escondem e me espreitam
por detrás das cortinas,
sacadas obscuras, brumas, arcarias?
Aonde foram os anjos e as cegonhas?
Não há neve nos telhados.
Não há lobos nos montes.
E os ciganos partiram comigo.
Signos renascem, exatos e imóveis,
tão antigos e tão novos,
tão meus e tão estranhos.
Agora sou apenas a visitante,
que vem de longe e passa, forasteira.
No entanto estas pedras, estas heras,
estas giestas,
este pinhal, chão de carumas e avencas,
esta cor macia,
este barro e musgo,
estas bermas de ervas, estas sombras,
estas árvores,estes muros de rosas, estes granitos,
este êxtase, isto - ai,
tudo isto!
- sou eu, meu avesso, meu dentro,
lugar secreto,
minha ermida,
convento,
onde só comigo me encontro.

(in Diário das Chuvas, ed. Bagaço/Recife/1995

sábado, 11 de junho de 2016

Crônica lirica de São Vicente da Beira


Ao sul, no regaço da Gardunha
imerso no acalanto dos pinhais
aconchega-se um lugar de maravilha
que resiste ao tempo e aos vendavais:
São Vicente da Beira, vila antiga
de foral e glorias medievais.

Reza a lenda que há, nas redondezas
ruínas de um castelo, ou cidadela
vestígios de história e de grandezas
que se guardam ali, de tempos mouros
onde um gato de pedra é sentinela
de séculos, de estrelas, de tesouros.

Na verdade esta vila foi fundada
por Afonso Henriques, rei primeiro
em paga aos favores de um valente
castelão quando aos mouros combatia:
são heranças que vêm desde sempre
terra da melhor cepa e melhor gente.

Tanto assim, sendo terra de valia
com insígnias e honras assinalada
foi então consagrada a São Vicente
e à capital do reino irmanada
na heráldica, também no padroeiro
de Lisboa pequena foi chamada.

Se episódios de infâmia e de amargura
a cronica vicentina atravessaram
saqueando-lhe honras e foral
esses contos e cantos de tristura
anais e pergaminhos não levaram
nem o orgulho da vila medieval.

Casario de pedra onde as heras
testemunham séculos de vida
no percurso de tantas primaveras
por rotas de chegada e de partida:
aqui um chafariz nos mata a sede
além uma ribeira se desvenda.

os brasões da história vicentina
encontram-se na pedra eternizados:
nos solares, nas fontes, nas esquinas
dão-nos conta de gentes e de fados.
E os sinos das igrejas em canto novo
contam contos dos feitos deste povo.

Na praça o capitel do Pelourinho
assinala raízes ancestrais
pássaro, escudo, barca, cruz florida
resistindo ao tempo e aos vendavais:
São Vicente da Beira, vila antiga
de foral e glorias medievais.

( in Cantochão de Todavia-  coletânea publicada pelo GEGA, São Vicente da Beira/2005)

Faz parte de POESIA REUNIDA DE MARIA DE LOURDES HORTAS,
livro virtual , editado pela Panamerica Nordestal/Recife,  a ser lançado em agosto próximo.

FONTE DE PÁSSAROS



Alfombra macia de luar e pétalas
assim por certo tua pele
onde me deitaria
abandonada como no chão da infância.
Enche-se de
abelhas
minha alma.
Ao longe os sinos.
Ao longe os barcos.E eu em ti
sozinha às portas do baile
ouvindo os boleros que retornam
esplendor, névoa, perfume, arrepios
vaga-lumes
sedas.

E eu sem ti
enquanto as ondas
uma a uma regressam - inquietas águas.

E eu aqui
enquanto o vento levianamente assobia
invadindo frestas da janela
onde ninguém espero.

E eu aqui
desfolhando as páginas do diário
como se desfolhasse margaridas e esperanças.

De onde nasce este desassossego rutilante
fonte de pássaros
em meu coração?

Maria de Lourdes Hortas

( in FONTE DE PÁSSAROS,1999)


sexta-feira, 25 de março de 2016

NOVA JERUSALÉM UM PALCO DE SETE HECTARES



(publicado na revista ITINERÁRIO, Coimbra/ Portugal , 1969)

Fim dos anos sessenta, no Nordeste do Brasil.
No roteiro do turista que passe por estas plagas , uma visita á cidade de Nova Jerusalém é obrigatória.
Saindo do Recife, ele atravessará a Serra das Russas, passando por Gravatá ( conhecida como a  Suíça pernambucana) e por Caruaru, terra do famoso  ceramista mestre Vitalino, que modelou os tipos característicos da sua terra. Mais alguns quilômetros de cactos e mandacarus e sentirá a fusão do calor e do silêncio, num mundo   exótico  e surpreendente. Pedras agudas formam os montes. A terra é seca e arenosa. Arbustos são a única nota verde-cinza  e o sol cai à vontade sobre toda a paisagem, sem sombra que o detenha: eis Fazenda Nova, lugar cujo mérito, até alguns nos atrás, era possuir águas alcalinas.
O  turista decepciona-se: então, percorreu léguas e léguas para encontrar uma estaçãozinha de águas e um hotel cuja única beleza consiste numa piscina onde andorinhas descem para se banhar?
Prossegue viagem. Envereda  por caminhos de cabras. Chega à muralha de Nova Jerusalém  e contempla a concretização de uma utopia.

A UTOPIA DE PLÍNIO PACHECO

Foi Epaminondas Mendonça quem jogou a primeira semente   do sonho. Leu numa revista que, numa vila da Baviera, durante a Semana Santa, a Paixão de Cristo era encenada nas ruas pelos seus habitantes. A ideia de fazer algo parecido em Fazenda Nova surgiu e não o abandonou. Assim, em 1950, nas tortuosas ruas da pequena cidade, aconteceu   a primeira representação do Drama do Calvário, com um elenco heterogêneo, composto pela família do próprio Epaminondas, e por lavradores  e  carregadores de água da região.
A encenação alcançou um realismo impressionante. Repetida nos anos seguintes, logo se tornou tradição. E, em 1962, mil e duzentos espectadores invadem Fazenda Nova, deslocando-se atrás dos atores que ressuscitam a epopeia cristã.
Já então um plano fantástico se delineava na mente de Epaminondas: reconstituir uma Jerusalém semelhante o mais possível à da época de Jesus, com o objetivo de dar ao espetáculo condições de máxima realidade.
O homem capaz de se embrenhar nessa aventura teria de ser um visionário ou um romântico, um bandeirante ou um bravo. E ele surgiu na pessoa de  Plínio Pacheco : casando-se com uma filha de Epaminondas Mendonça,  logo abandonou a farda da força Aérea Brasileira, despediu-se do barulho das redações dos jornais e foi morar em Fazenda Nova.

DO PROJETO À REALIDADE

Adquirindo o terreno de 70.000m2 ( um terço da área murada da velha Jerusalém), cactos e pedregulhos foram dando lugar a edifícios e casas no estilo da época de Cristo. Com base em pesquisas históricas e plantas feitas, entre outros, por Ana Gonçalves, Walter Macedo, Frederico de Holanda, Ubirajara Galvão e pelo próprio Plínio Pacheco, o projeto que parecia irrealizável foi se transformando em sólida realidade de granito. No momento ( 1969) construíram-se já os palácios de Asmoneus e  o de Herodes, o Forum de Pilatos, o templo, o tribunal de Caifás, o Cinédrio e o cenáculo. Ao lado deles, surgiram os arruados da Via sacra e, nos arredores, réplicas do Monte das Oliveiras, Fonte das Virgens e  Santo Sepulcro.
Este palco de sete hectares – hoje o maior palco ao ar livre do mundo – será fechado por uma muralha de pedra bruta, com sete portas, das quais, uma já concluída, serve de entrada para o recinto.
Plínio Pacheco, que passa o dia numa das casas do arruado da Via Sacra, recebe o visitante,  oferece-lhe água e sucos,  e tem gosto em contar a história de Nova Jerusalém.
Foi aí que me recebeu e  me contou tudo o que escrevo neste texto, explicando que os edifícios construídos não servirão  apenas como palco do grandioso espetáculo anual. Em breve, periodicamente, ali acontecerão  festivais de teatro grego, de dança, de canto coral, de cinema. Também  pretende movimentar cursos, conferencias e exposições. Tudo isso visando tornar Nova Jerusalém um centro atuante de cultura, dinamizado por uma colônia de férias, que aproveitará as próprias casas e palácios da cidade-teatro, propiciando a artistas, jornalistas e gente ligada à cultura uma hospedagem paga, em parte, com exposições de seus trabalhos e promoção de cursos e conferencias.
Por outro lado, o aspecto social não foi esquecido: atualmente uma escola para crianças funciona no palácio de Asmoneus, mas, no futuro, serão instaladas escolas artesanais e de alfabetização de adultos.

O ESPETÁCULO PROPRIAMENTE DITO
Desde aquela representação despretensiosa de 1950 até hoje, o espetáculo cresceu muito. Nele colaboram centenas de pessoas, desde técnicos, atores, um coral de 50 vozes, um conjunto de danças clássicas e extras requisitados entre os habitantes da cidade. Os figurantes, cerca de quinhentos, envergam um guarda-roupa especialmente desenhado e confeccionado para a peça.
O desenvolvimento das cenas tem início na quinta-feira á noite, com o Sermão da Montanha. Os espectadores, por 3 horas, seguem os atores e os extras e a eles se misturam, no Templo, no Cenáculo, no Horto, no tribunal de Caifás.
Na sexta-feira, também à noite, o espetáculo prossegue, desde o Forum de Pilatos até o Calvário, onde se assiste, num ambiente trágico, à crucificação de Jesus, terminando com a grandiosidade da ressurreição.

CONVITE
Quando passar pelo Recife, mesmo que não seja época de Semana Santa, não deixe de atravessar o agreste pernambucano para   conhecer a Nova Jerusalém. Lá encontrará um homem com pele de bronze e pulso de ferro. De bermudas e chapéu de palha, confunde-se com os operários que, indiferentes à inclemência do sol, com suas ferramentas primitivas, arrancam da pedra os capitéis do sonho: trata-se de Plínio Pacheco, uma espécie de profeta moderno, que lhe abrirá a sua Nova Jerusalém, exemplo de persistência, de fé e de milagre.


Nota da autora: da época em que o artigo acima foi escrito, até hoje, muita coisa mudou em  Nova Jerusalém. Por exemplo: atualmente o espetáculo  ocorre num só dia, repetindo-se de quinta a domingo; em geral  tem como ator principal um astro das novelas da  TV, que se renova todos os anos. Abaixo , como atualização, transcrevo  algumas informações, recolhidas no  site  de Nova Jerusalém.

NOVA JERUSALÉM NO SÉCULO XXI
Constituída por nove palcos, em uma área de 100 mil m², cercada por uma muralha de 3.500 m e 70 torres, Nova Jerusalém corresponde a um terço da Jerusalém original, onde Jesus viveu seus últimos dias.

Idealizada e construída por Plínio Pacheco, a cidade-teatro está localizada no distrito de Fazenda Nova, no município de Brejo da Madre de Deus, a 180 km do Recife, capital pernambucana.

Assistido por mais de dois milhões e meio de pessoas, com um público médio diário de 8.000 e conseguindo atingir a marca de 72.000, no aniversário de 40 anos, o maior teatro ao ar livre do mundo encanta turistas nacionais e internacionais pela estrutura e semelhança com a Judéia dos tempos da dominação romana.

Os palcos reproduzem os cenários naturais, os arruados, o Palácio de Herodes, o Fórum de Pilatos, o Templo de Jerusalém e o Cenáculo, constituindo uma obra monumental. Tudo é grandioso, encantador e inesquecível.

O requinte dos detalhes, a beleza plástica e a qualidade impressionam o público que, a cada ano, lota os espetáculos.


OBS: in NOS BASTIDORES DA POESIA ( livro inédito, reunião de textos críticos e outros temas de Maria de Lourdes Hortas)