terça-feira, 20 de março de 2018
segunda-feira, 19 de março de 2018
quarta-feira, 24 de maio de 2017
Diário de Aldeia
A rosa da manhã desfolha-se luminosa
diluindo o silencio
sobre a noite de chuva.
A cerca de jasmins escorre chuva
diluindo o silencio
sobre a noite de chuva.
*
Noite a fora
o flamboyant contou à chuva sua história
e ela a semeou na relva do jardim.
o flamboyant contou à chuva sua história
e ela a semeou na relva do jardim.
*
perfume intenso acordando o sol.
*
comentário do poeta pernambucano José Terra
querida Lurdinha, acabei de acessar seu blog, passei uns 20 minutos pra colocar minha opinião e não consegui...
eis o comentário que fiz dentro do poema " revisitação":
"Belo poema, Lurdinha!
ele retrata bem a sua poesia
lírica e livre como uma rosa e uma primavera
e como sempre, traz o traço marcante de sua linguagem:
a elegância.
a elegância.
Que seu blog tenha vida longa
assim como tem a sua poesia
Parabéns pela simplicidade e beleza! "
do seu leitor e fã
José Terra
HOMENAGEM AO POETA MAURO MOTA
No centenário do nascimento de Mauro Mota , (16 de agosto de 1911), deixo aqui registrada a minha homenagem a esse grande poeta pernambucano da Geração 45.
Tive o prazer e a honra de conhecê-lo no final dos anos setenta, quando comecei a aparecer nas rodas literárias do Recife. Mauro gostava de frequentar o Clube Alemão, na Estrada do Encanamento, entre Casa Amarela e Parnamirim. Em certos dias da semana, ao fim da tarde , lá se encontrava com outros poetas e escritores. E foi numa desses encontros de poesia que o conheci. Depois, algumas vezes , cruzei com ele na rua do Imperador, o poeta a caminho do Arquivo Público,( onde era Diretor), e eu do Gabinete Português de Leitura, que Mauro Mota frequentou assiduamente. Mais tarde, deu-me a alegria de escrever, um breve mas valioso comentário acerca da minha poesia , no Diário de Pernambuco.
Mauro Mota faleceu no dia 22 de novembro de 1984. Nesse dia estava eu em Juiz de Fora (MG), para assumir o meu lugar de sócia correspondente na Academia de Letras daquela cidade. No início da sessão, prestei-lhe uma singela homenagem, tomando-o como meu padrinho e recitando uma das suas belas elegias.
Mauro Mota foi membro das Academias Brasileira e Pernambucana de Letras ( sendo, desta última, presidente durante vários anos).
Sua obra atravessou fronteiras, com poemas traduzidos em inglês, italiano e espanhol.
Da “Antologia Didática de poetas pernambucanos” (1988, org. por Ézio Rafael , Cremilda de Matos e Izabel M. da Silva ), transcrevo o trecho que se segue e, a seguir, o poema referido no mesmo:
Poeta profundamente identificado com a paisagem, as ruas, os costumes e os valores de sua terra, procurou, no entanto, numa simples descrição de uma rua, como a Rua do Crespo, por exemplo, dar-lhe sempre uma transcendência lírica universal”.
RUA DO CRESPO (1870)
( Em desenho de Scklappritz)
MAURO MOTA
Lojas vestindo anáguas:
As marquises de pano.
Dois cachorros sem dono
Mordem o primeiro plano.
Um soldado a cavalo
O que tanto vigia?
Ah, se prender pudesse
Esse tempo e esse dia!
Agitam-se as parelhas
Ao sinal do boleeiro.
Para onde a diligencia
Conduz os passageiros?
Onde estão os meninos
Daqui, que não escutam
O pregão das escravas
Com sequilhos e frutas?
Os lampiões em fila
São, de longe, pedestres
Magros, andando retos
Para a igreja no fundo.
( Um homem prevenido
Abre o seu guarda-roupa).
Vem caindo a neblina
Das varandas na rua.
(in Antologia Didática de Poetas Pernambucanos )
LEITURAS
Viagens Gerais, poesia
Celina de Holanda
Fundarpe / Cepe
Recife, 1995, 370 pgs.
Desde O Espelho e a Rosa ( estréia,1970), até Afago e Faca ( inédito por vários anos e agora publicado nesta coletânea), a obra de Celina de Holanda vem se construindo sobre as premissas que lhe deram origem: a luz e a sombra, o jardim e o interior, o consciente e o inconsciente, a intuição e o conhecimento. Por outras palavras: sobre o universo mágico do Engenho Pantorra, onde viveu a infância, entre as histórias dos pretos velhos e os livros da biblioteca da casa, sempre atualizada:
Chego às janelas da noite
Meus olhos buscam o que era (...)
O poema de Celina que serve de pórtico ao livro não poderia ter sido melhor escolhido, pois é também uma espécie de mapa que, à partida para estas Viagens, desvela ao leitor as gerais intenções das mesmas:
Viajo pelos livros que faço
Mas sempre torno
Para escreve-los
Onde a vida é uma menina
Chorando
Entre moitas.
A afirmativa da autora faz-nos concluir que, nela, a escrita, mais do que um mecanismo lírico de regresso ás origens, é a própria forma de subverter os limites cronológicos: escrever é voltar ao antigo cenário bucólico,
... onde havia as águas caindo
na rampa da cachoeira
parecendo lençol branco
por entre espumas fugindo(...)
passando rente na mata
onde gritava o pavão (...) pág.95.
Nesse alumbramento das águas despencando em vertigem, abismo de espuma fugitiva, a poesia a tocou, escolhendo-a para a sina de dizer os sentimentos. Na verdade, a poesia chegou à vida de Celina com a naturalidade com que, pela manhã, chegavam os pássaros às varandas da casa da infância. Varandas que, de resto, também se abriam para o poço fundo das suas inquietações:
Um espelho e seus dois lados
Réptil e pássaro
O que somos.(...)
Para onde essas rotas de vôo
Se abrem e se apagam?
Dessa vivencia telúrica da zona da mata pernambucana e, por certo, da convivência com o chão de barro plasmável ,no qual moldou seus versos, lhe ficou o gosto pelo simples e essencial:
Que tudo em si lembrava
Madressilvas
Malvas cheirosas
Verdes moitas
Manhãs
Frescor e orvalho.
Luminosa, com o despojamento e a grandeza das pequenas coisas, a poesia de Celina de Holanda brota com a naturalidade das fontes - espontaneidade que não é fácil alcançar. Um poeta espontâneo português, Manuel da Fonseca, confessa: ”Ser espontâneo dá-me muito trabalho”. Isso porque, a simplicidade do texto poético não se confunde com pobreza ou acaso. Na leitura desta recolha da obra de Celina, percebe-se que ela conseguiu harmonizar a sensibilidade e a percepção com um sexto sentido estético, equipamentos que, mesmo fazendo parte da bagagem genética do poeta, só se aprimoram com leitura e exercício da escrita, somados ao sábios filtros da vivencia e do tempo.
Quanto à temática da sua poesia, o título de um dos seus últimos livros já referido – Afago e Faca – é metáfora e síntese. Sem dúvida, a trajetória da poetisa tem se firmado sobre essas duas bem definidas vertentes. Solidários,
o tema social ( faca) e o tema afetivo ( afago) se entrecruzam continuamente. Assim, sem conseguir compactuar com a injustiça social, ou com o desconforto emocional diante de uma realidade que agride os seus princípios cristãos, Celina toma a palavra, com energia e veemência:
Ouço o povo numeroso de Deus.
(...) Ouço as portas.
É o clamor do povo de Deus, abrindo-as. (pág.190)
Todavia, a meu ver, a grande força da sua poesia acontece nos poemas de tom elegíaco: aí cresce e se dilata, despindo-se do circunstancial e ultrapassando limites geográficos e temporais:
Tudo já aconteceu. Coloca a insígnia
(primado do sinal) sobre o meu peito
E um penso de amor sobre esta chaga.
Escuta o pássaro
Rolando
Como um jornal velho, rasgado,
A asa da ascensão cortada. Sua beleza
Guardarei sobre o meu corpo
Como um fruto
A que se tira a casca.
Mas
Dá-me um pouco da tarde onde ficamos.
Maria de Lourdes Hortas
(Publicado no jornal literário O PÃO, Fortaleza/Ceará, junho,1996)
+ Recife,1999
(para um livro de ensaios, talvez sob o título LEITURAS DIVERSAS E OUTROS TEXTOS)
AS VIAGENS GERAIS DE CELINA DE HOLANDA
Viagens Gerais, poesia
Celina de Holanda
Fundarpe / Cepe
Recife, 1995, 370 pgs.
Desde O Espelho e a Rosa ( estréia,1970), até Afago e Faca ( inédito por vários anos e agora publicado nesta coletânea), a obra de Celina de Holanda vem se construindo sobre as premissas que lhe deram origem: a luz e a sombra, o jardim e o interior, o consciente e o inconsciente, a intuição e o conhecimento. Por outras palavras: sobre o universo mágico do Engenho Pantorra, onde viveu a infância, entre as histórias dos pretos velhos e os livros da biblioteca da casa, sempre atualizada:
Chego às janelas da noite
Meus olhos buscam o que era (...)
O poema de Celina que serve de pórtico ao livro não poderia ter sido melhor escolhido, pois é também uma espécie de mapa que, à partida para estas Viagens, desvela ao leitor as gerais intenções das mesmas:
Viajo pelos livros que faço
Mas sempre torno
Para escreve-los
Onde a vida é uma menina
Chorando
Entre moitas.
A afirmativa da autora faz-nos concluir que, nela, a escrita, mais do que um mecanismo lírico de regresso ás origens, é a própria forma de subverter os limites cronológicos: escrever é voltar ao antigo cenário bucólico,
... onde havia as águas caindo
na rampa da cachoeira
parecendo lençol branco
por entre espumas fugindo(...)
passando rente na mata
onde gritava o pavão (...) pág.95.
Nesse alumbramento das águas despencando em vertigem, abismo de espuma fugitiva, a poesia a tocou, escolhendo-a para a sina de dizer os sentimentos. Na verdade, a poesia chegou à vida de Celina com a naturalidade com que, pela manhã, chegavam os pássaros às varandas da casa da infância. Varandas que, de resto, também se abriam para o poço fundo das suas inquietações:
Um espelho e seus dois lados
Réptil e pássaro
O que somos.(...)
Para onde essas rotas de vôo
Se abrem e se apagam?
Dessa vivencia telúrica da zona da mata pernambucana e, por certo, da convivência com o chão de barro plasmável ,no qual moldou seus versos, lhe ficou o gosto pelo simples e essencial:
Que tudo em si lembrava
Madressilvas
Malvas cheirosas
Verdes moitas
Manhãs
Frescor e orvalho.
Luminosa, com o despojamento e a grandeza das pequenas coisas, a poesia de Celina de Holanda brota com a naturalidade das fontes - espontaneidade que não é fácil alcançar. Um poeta espontâneo português, Manuel da Fonseca, confessa: ”Ser espontâneo dá-me muito trabalho”. Isso porque, a simplicidade do texto poético não se confunde com pobreza ou acaso. Na leitura desta recolha da obra de Celina, percebe-se que ela conseguiu harmonizar a sensibilidade e a percepção com um sexto sentido estético, equipamentos que, mesmo fazendo parte da bagagem genética do poeta, só se aprimoram com leitura e exercício da escrita, somados ao sábios filtros da vivencia e do tempo.
Quanto à temática da sua poesia, o título de um dos seus últimos livros já referido – Afago e Faca – é metáfora e síntese. Sem dúvida, a trajetória da poetisa tem se firmado sobre essas duas bem definidas vertentes. Solidários,
o tema social ( faca) e o tema afetivo ( afago) se entrecruzam continuamente. Assim, sem conseguir compactuar com a injustiça social, ou com o desconforto emocional diante de uma realidade que agride os seus princípios cristãos, Celina toma a palavra, com energia e veemência:
Ouço o povo numeroso de Deus.
(...) Ouço as portas.
É o clamor do povo de Deus, abrindo-as. (pág.190)
Todavia, a meu ver, a grande força da sua poesia acontece nos poemas de tom elegíaco: aí cresce e se dilata, despindo-se do circunstancial e ultrapassando limites geográficos e temporais:
Tudo já aconteceu. Coloca a insígnia
(primado do sinal) sobre o meu peito
E um penso de amor sobre esta chaga.
Escuta o pássaro
Rolando
Como um jornal velho, rasgado,
A asa da ascensão cortada. Sua beleza
Guardarei sobre o meu corpo
Como um fruto
A que se tira a casca.
Mas
Dá-me um pouco da tarde onde ficamos.
(Publicado no jornal literário O PÃO, Fortaleza/Ceará, junho,1996)
Lampejos poéticos de Maria de Lourdes Hortas
Lampejos poéticos de Maria de Lourdes Hortas *
por Fernando Braga, poeta maranhense
Maria
de Lourdes Hortas** é uma escritora portuguesa de boa cepa, que, sempre,
generosamente, em meio às boas notícias, remete para os meus pensares, a
revista “Encontro”, órgão informativo e literário do Gabinete Português de
Leitura, de Pernambuco, publicação que sensivelmente dirige fazendo-a
distribuir para os países de língua portuguesa. Essa revista, a qual já tive a
oportunidade de publicar um excerto de meu ensaio sobre Bocage, o maior
sonetista ibérico do século XVIII, já me proporcionou, também, a oportunidade
de sentir, por outros ângulos, as genialidades de Camilo, de Eça, de Antônio
Nobre, de Mário de Sá-Carneiro, de Miguel Torga e de tantos outros luminares de
Portugal continental, assim como poetas modernos de Angola, Moçambique, Macau,
Timor, São Tomé e Príncipe, juntamente com uma gama de intelectuais de primeira
linha da Ilha da Madeira.
Estes lampejos sobre a poética (muitas vezes em prosa) de Maira de
Lourdes Hortas foge, desta vez, às regras epistolares - e que já vão longe –
para alguns mergulhos não tão densos, como mereciam, sobre o alimento
espiritual dessa minha estimada amiga, colocação que aqui, obviamente, não vem
ao caso.
No clarear de uma prosa ou de um verso dessa escritora, corporifica-se em
epígrafe, o constelado Fernando Pessoa, através dos sentimentos de Ricardo
Reis, quando na abertura de certas confissões, Maria de Lourdes diz que aquelas
são “como as pedras na orla dos
canteiros”. Falo do livro da minha amiga lusa “Adeus, Aldeia”, editado em
Vila da Trofa (Portugal), que além de ser um belíssimo livro no aspecto gráfico
(e lá se trabalha muito bem neste ofício), é um sentimental depoimento de quem
sente ficar a distância do velho cais de pedras, ou das areias de ouro do Tejo,
amores aldeãos como aqueles contados pela maioria dos autores lusitanos quando
saem de suas freguesias, pedaços de vidas ainda a se edificar, e o aconchego e
costumes de uma aldeia, como talvez seja São Vicente da Beira (Província de
Castelo Branco), onde nasceu Maria de Lourdes Hortas, emigrada um dia para o
Brasil, desembarcando em Recife, para ser outorgada como a amais pernambucana
das portuguesas nas terras de Gilberto Freyre e de João Cabral de Melo Neto.
Há tempos, Maria de Lourdes mandou-me o livro “Diário das Chuvas”, uma
publicação das edições “Bagaço” (Recife 1995), prêmio Fernando Chinaglia,
concedido pela União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, em 1981. É o
segundo momento de uma trilogia, como ela própria explica, a envolver uma trama
bem-aventurada entre Gabriel e Tâmara. “Ele
já me deitou por terra e suas mãos prendem-me os pulsos, agora sei o que é
plenitude”. Ou ainda: “Lembrei-me do
livro onde um grego dizia que as mulheres, para estarem felizes, precisam
sentir-se desejadas”. O livro apesar de escrito em bela prosa tem uma
construção poética, que a bem da verdade, há tempos não lia: “Minhas semanas têm apenas os dias em que te
vejo”. É por aí!
Depois recebi a “Dança das Heras”, uma também belíssima publicação
lisboeta, quase que artesanal, produzida nas oficinas do editor e também
artista José Manuel Capêlo. Este livro prendeu-me o tempo. No primeiro verso do
poema “Revoada”, de Maria de Lourdes é de um alcance extraordinário, quando diz
de uma maneira simples e profunda: “Em
alguma praça de mim um sino para reinventar um tempo antigo”, para compor
em síntese o que passou, com toda uma força criadora: “Faz-de-conta que o tempo é uma varanda”. Eis tudo!
Como boa portuguesa, a sentir as
correntes marítimas nas veias, e no coração uma carta de marear, Maria de
Lourdes Hortas simboliza como órfã “de um sonho suspenso”, o “azul além do
azul/ águas mais fundas/ um mar dentro do mar.”.
Já ditos no início, dos sentimentos que ficam
a distância do velho cais de pedras, ou nas areias de ouro do Tejo, Maria de
Lourdes em “Acto de Fé” (sic), ratifica minha assertiva quando exclama saudosa
que ficou para trás o “êxtase da infância
esperando-me na esquina”.
Enquanto
Fernando Pessoa fez imortalizar Alberto Caeeiro, um de seus alteregos, ao dizer
“que o rio da minha aldeia não faz pensar
em nada”, a minha parceira de sentimentos e de ofício, se é que posso
chamá-la assim, burila docemente um “Desocultar as Fontes” que “se espreguiça um rio primitivo que recita
as lendas da construção da aldeia’. Uma coisa é pensar e outra é sonhar.
Como aqui foram envolvidos dois dos mais queridos heterônimos do imortal poeta
de “Mensagem”, com Caeeiro fica a primeira premissa: “Há metafísica bastante em não pensar em nada”, justificando que “o espelho reflete certo; não erra porque
não pensa. Pensar é essencialmente errar. Errar é essencialmente estar cego e
surdo”. Com esses versos de Maria de Lourdes, diríamos que há metafísica
bastante em idear sonhos. Para nos socorrer depressa nessa sentença, evocamos
Ricardo Reis para a segunda proposição, na qual enfatiza: “Severo narro. Quando sinto, penso. Palavras são idéias”.
Simplesmente um paradoxo provocado ou um enlace de idéias contrastantes?
E ainda sobre o criador de “Odes”, com o qual abrimos este dedo de prosa,
por força das confissões da escritora, quando o chama a dizer: “das pedras na orla dos canteiros”, deixaremos para que siga “rumo aos acasos do sol”, o verso seguinte àquele,
em que trocamos, por conveniência de fecho destes apontamentos, apenas um
advérbio por outro, com o grifo nosso: “O fado nos dispõe e por cá ficamos”.
--------------------------
* Publicado in Opinião, Jornal O
Estado do Maranhão, 13.11.97
**Maria de Lourdes é a diretora da Revista “Encontro”, órgão de
divulgação do Gabinete Português de Leitura de Pernambanco [Recife], onde tenho
a honra de ser um dos colaboradores. Para minha grande honra, foi Maria de
Lourdes Hortas que escreveu a contracapa do meu livro de poemas “O Puro Longe”,
publicado em 2012.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
site da Panamerica Nordestal. Panamerica Livraria
Para ter acesso ao livro eletrônico POESIA COMPLETA DE MARIA DE LOURDES HORTAS , acesse o site da Panamerica Nordestal - http://www.panamerica.net.br - e mantenha contato com a direção editorial (Juareiz Correya, escritor e editor) .
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
DIÁRIO DAS CHUVAS
CAPITULO 41.
Que fantasmas se escondem e me espreitam
por detrás das cortinas,
sacadas obscuras, brumas, arcarias?
Aonde foram os anjos e as cegonhas?
Não há neve nos telhados.
Não há lobos nos montes.
E os ciganos partiram comigo.
Signos renascem, exatos e imóveis,
tão antigos e tão novos,
tão meus e tão estranhos.
Agora sou apenas a visitante,
que vem de longe e passa, forasteira.
No entanto estas pedras, estas heras,
estas giestas,
este pinhal, chão de carumas e avencas,
esta cor macia,
este barro e musgo,
estas bermas de ervas, estas sombras,
estas árvores,estes muros de rosas, estes granitos,
este êxtase, isto - ai,
tudo isto!
- sou eu, meu avesso, meu dentro,
lugar secreto,
minha ermida,
convento,
onde só comigo me encontro.
(in Diário das Chuvas, ed. Bagaço/Recife/1995
Que fantasmas se escondem e me espreitam
por detrás das cortinas,
sacadas obscuras, brumas, arcarias?
Aonde foram os anjos e as cegonhas?
Não há neve nos telhados.
Não há lobos nos montes.
E os ciganos partiram comigo.
Signos renascem, exatos e imóveis,
tão antigos e tão novos,
tão meus e tão estranhos.
Agora sou apenas a visitante,
que vem de longe e passa, forasteira.
No entanto estas pedras, estas heras,
estas giestas,
este pinhal, chão de carumas e avencas,
esta cor macia,
este barro e musgo,
estas bermas de ervas, estas sombras,
estas árvores,estes muros de rosas, estes granitos,
este êxtase, isto - ai,
tudo isto!
- sou eu, meu avesso, meu dentro,
lugar secreto,
minha ermida,
convento,
onde só comigo me encontro.
(in Diário das Chuvas, ed. Bagaço/Recife/1995
sábado, 11 de junho de 2016
Crônica lirica de São Vicente da Beira
Ao sul, no regaço da Gardunha
imerso no acalanto dos pinhais
aconchega-se um lugar de maravilha
que resiste ao tempo e aos vendavais:
São Vicente da Beira, vila antiga
de foral e glorias medievais.
Reza a lenda que há, nas redondezas
ruínas de um castelo, ou cidadela
vestígios de história e de grandezas
que se guardam ali, de tempos mouros
onde um gato de pedra é sentinela
de séculos, de estrelas, de tesouros.
Na verdade esta vila foi fundada
por Afonso Henriques, rei primeiro
em paga aos favores de um valente
castelão quando aos mouros combatia:
são heranças que vêm desde sempre
terra da melhor cepa e melhor gente.
Tanto assim, sendo terra de valia
com insígnias e honras assinalada
foi então consagrada a São Vicente
e à capital do reino irmanada
na heráldica, também no padroeiro
de Lisboa pequena foi chamada.
Se episódios de infâmia e de amargura
a cronica vicentina atravessaram
saqueando-lhe honras e foral
esses contos e cantos de tristura
anais e pergaminhos não levaram
nem o orgulho da vila medieval.
Casario de pedra onde as heras
testemunham séculos de vida
no percurso de tantas primaveras
por rotas de chegada e de partida:
aqui um chafariz nos mata a sede
além uma ribeira se desvenda.
os brasões da história vicentina
encontram-se na pedra eternizados:
nos solares, nas fontes, nas esquinas
dão-nos conta de gentes e de fados.
E os sinos das igrejas em canto novo
contam contos dos feitos deste povo.
Na praça o capitel do Pelourinho
assinala raízes ancestrais
pássaro, escudo, barca, cruz florida
resistindo ao tempo e aos vendavais:
São Vicente da Beira, vila antiga
de foral e glorias medievais.
( in Cantochão de Todavia- coletânea publicada pelo GEGA, São Vicente da Beira/2005)
Faz parte de POESIA REUNIDA DE MARIA DE LOURDES HORTAS,
livro virtual , editado pela Panamerica Nordestal/Recife, a ser lançado em agosto próximo.
FONTE DE PÁSSAROS
Alfombra macia de luar e pétalas
assim por certo tua pele
onde me deitaria
abandonada como no chão da infância.
Enche-se de
abelhas
minha alma.
Ao longe os sinos.
Ao longe os barcos.E eu em ti
sozinha às portas do baile
ouvindo os boleros que retornam
esplendor, névoa, perfume, arrepios
vaga-lumes
sedas.
E eu sem ti
enquanto as ondas
uma a uma regressam - inquietas águas.
E eu aqui
enquanto o vento levianamente assobia
invadindo frestas da janela
onde ninguém espero.
E eu aqui
desfolhando as páginas do diário
como se desfolhasse margaridas e esperanças.
De onde nasce este desassossego rutilante
fonte de pássaros
em meu coração?
Maria de Lourdes Hortas
( in FONTE DE PÁSSAROS,1999)
sexta-feira, 25 de março de 2016
NOVA JERUSALÉM UM PALCO DE SETE HECTARES
(publicado na revista ITINERÁRIO, Coimbra/
Portugal , 1969)
Fim dos anos sessenta, no Nordeste do Brasil.
No roteiro do turista que passe por estas plagas
, uma visita á cidade de Nova Jerusalém é obrigatória.
Saindo do Recife, ele atravessará a Serra das
Russas, passando por Gravatá ( conhecida como a
Suíça pernambucana) e por Caruaru, terra do famoso ceramista mestre Vitalino, que modelou os
tipos característicos da sua terra. Mais alguns quilômetros de cactos e
mandacarus e sentirá a fusão do calor e do silêncio, num mundo exótico
e surpreendente. Pedras agudas formam os montes. A terra é seca e
arenosa. Arbustos são a única nota verde-cinza
e o sol cai à vontade sobre toda a paisagem, sem sombra que o detenha:
eis Fazenda Nova, lugar cujo mérito, até alguns nos atrás, era possuir águas
alcalinas.
O turista
decepciona-se: então, percorreu léguas e léguas para encontrar uma estaçãozinha
de águas e um hotel cuja única beleza consiste numa piscina onde andorinhas
descem para se banhar?
Prossegue viagem. Envereda por caminhos de cabras. Chega à muralha de
Nova Jerusalém e contempla a
concretização de uma utopia.
A UTOPIA DE PLÍNIO PACHECO
Foi Epaminondas Mendonça quem jogou a primeira
semente do sonho. Leu numa revista que,
numa vila da Baviera, durante a Semana Santa, a Paixão de Cristo era encenada
nas ruas pelos seus habitantes. A ideia de fazer algo parecido em Fazenda Nova
surgiu e não o abandonou. Assim, em 1950, nas tortuosas ruas da pequena cidade,
aconteceu a primeira representação do Drama do Calvário,
com um elenco heterogêneo, composto pela família do próprio Epaminondas, e por
lavradores e carregadores de água da região.
A encenação alcançou um realismo impressionante.
Repetida nos anos seguintes, logo se tornou tradição. E, em 1962, mil e
duzentos espectadores invadem Fazenda Nova, deslocando-se atrás dos atores que
ressuscitam a epopeia cristã.
Já então um plano fantástico se delineava na
mente de Epaminondas: reconstituir uma Jerusalém semelhante o mais possível à
da época de Jesus, com o objetivo de dar ao espetáculo condições de máxima
realidade.
O homem capaz de se embrenhar nessa aventura
teria de ser um visionário ou um romântico, um bandeirante ou um bravo. E ele
surgiu na pessoa de Plínio Pacheco :
casando-se com uma filha de Epaminondas Mendonça, logo abandonou a farda da força Aérea
Brasileira, despediu-se do barulho das redações dos jornais e foi morar em
Fazenda Nova.
DO PROJETO À REALIDADE
Adquirindo o terreno de 70.000m2 ( um terço da
área murada da velha Jerusalém), cactos e pedregulhos foram dando lugar a
edifícios e casas no estilo da época de Cristo. Com base em pesquisas
históricas e plantas feitas, entre outros, por Ana Gonçalves, Walter Macedo,
Frederico de Holanda, Ubirajara Galvão e pelo próprio Plínio Pacheco, o projeto
que parecia irrealizável foi se transformando em sólida realidade de granito.
No momento ( 1969) construíram-se já os palácios de Asmoneus e o de Herodes, o Forum de Pilatos, o templo, o
tribunal de Caifás, o Cinédrio e o cenáculo. Ao lado deles, surgiram os
arruados da Via sacra e, nos arredores, réplicas do Monte das Oliveiras, Fonte
das Virgens e Santo Sepulcro.
Este palco de sete hectares – hoje o maior palco
ao ar livre do mundo – será fechado por uma muralha de pedra bruta, com sete
portas, das quais, uma já concluída, serve de entrada para o recinto.
Plínio Pacheco, que passa o dia numa das casas do
arruado da Via Sacra, recebe o visitante, oferece-lhe água e sucos, e tem gosto em contar a história de Nova
Jerusalém.
Foi aí que me recebeu e me contou tudo o que escrevo neste texto,
explicando que os edifícios construídos não servirão apenas como palco do grandioso espetáculo
anual. Em breve, periodicamente, ali acontecerão festivais de teatro grego, de dança, de canto
coral, de cinema. Também pretende
movimentar cursos, conferencias e exposições. Tudo isso visando tornar Nova
Jerusalém um centro atuante de cultura, dinamizado por uma colônia de férias,
que aproveitará as próprias casas e palácios da cidade-teatro, propiciando a
artistas, jornalistas e gente ligada à cultura uma hospedagem paga, em parte,
com exposições de seus trabalhos e promoção de cursos e conferencias.
Por outro lado, o aspecto social não foi
esquecido: atualmente uma escola para crianças funciona no palácio de Asmoneus,
mas, no futuro, serão instaladas escolas artesanais e de alfabetização de
adultos.
O ESPETÁCULO PROPRIAMENTE DITO
Desde aquela representação despretensiosa de 1950
até hoje, o espetáculo cresceu muito. Nele colaboram centenas de pessoas, desde
técnicos, atores, um coral de 50 vozes, um conjunto de danças clássicas e
extras requisitados entre os habitantes da cidade. Os figurantes, cerca de
quinhentos, envergam um guarda-roupa especialmente desenhado e confeccionado
para a peça.
O desenvolvimento das cenas tem início na
quinta-feira á noite, com o Sermão da Montanha. Os espectadores, por 3 horas,
seguem os atores e os extras e a eles se misturam, no Templo, no Cenáculo, no
Horto, no tribunal de Caifás.
Na sexta-feira, também à noite, o espetáculo
prossegue, desde o Forum de Pilatos até o Calvário, onde se assiste, num
ambiente trágico, à crucificação de Jesus, terminando com a grandiosidade da
ressurreição.
CONVITE
Quando passar pelo Recife, mesmo que não seja
época de Semana Santa, não deixe de atravessar o agreste pernambucano para conhecer a Nova Jerusalém. Lá encontrará um
homem com pele de bronze e pulso de ferro. De bermudas e chapéu de palha, confunde-se com os operários que,
indiferentes à inclemência do sol, com suas ferramentas primitivas, arrancam da
pedra os capitéis do sonho: trata-se de Plínio Pacheco, uma espécie de profeta
moderno, que lhe abrirá a sua Nova Jerusalém, exemplo de persistência, de fé e
de milagre.
Nota
da autora: da época em que o artigo acima foi escrito, até
hoje, muita coisa mudou em Nova
Jerusalém. Por exemplo: atualmente o espetáculo
ocorre num só dia, repetindo-se de quinta a domingo; em geral tem como ator principal um astro das novelas
da TV, que se renova todos os anos.
Abaixo , como atualização, transcrevo
algumas informações, recolhidas no
site de Nova Jerusalém.
NOVA JERUSALÉM NO SÉCULO XXI
Constituída por nove palcos, em uma área de 100
mil m², cercada por uma muralha de 3.500 m e 70 torres, Nova Jerusalém
corresponde a um terço da Jerusalém original, onde Jesus viveu seus últimos
dias.
Idealizada e construída por Plínio Pacheco, a cidade-teatro está localizada no distrito de Fazenda Nova, no município de Brejo da Madre de Deus, a 180 km do Recife, capital pernambucana.
Assistido por mais de dois milhões e meio de pessoas, com um público médio diário de 8.000 e conseguindo atingir a marca de 72.000, no aniversário de 40 anos, o maior teatro ao ar livre do mundo encanta turistas nacionais e internacionais pela estrutura e semelhança com a Judéia dos tempos da dominação romana.
Os palcos reproduzem os cenários naturais, os arruados, o Palácio de Herodes, o Fórum de Pilatos, o Templo de Jerusalém e o Cenáculo, constituindo uma obra monumental. Tudo é grandioso, encantador e inesquecível.
O requinte dos detalhes, a beleza plástica e a qualidade impressionam o público que, a cada ano, lota os espetáculos.
Idealizada e construída por Plínio Pacheco, a cidade-teatro está localizada no distrito de Fazenda Nova, no município de Brejo da Madre de Deus, a 180 km do Recife, capital pernambucana.
Assistido por mais de dois milhões e meio de pessoas, com um público médio diário de 8.000 e conseguindo atingir a marca de 72.000, no aniversário de 40 anos, o maior teatro ao ar livre do mundo encanta turistas nacionais e internacionais pela estrutura e semelhança com a Judéia dos tempos da dominação romana.
Os palcos reproduzem os cenários naturais, os arruados, o Palácio de Herodes, o Fórum de Pilatos, o Templo de Jerusalém e o Cenáculo, constituindo uma obra monumental. Tudo é grandioso, encantador e inesquecível.
O requinte dos detalhes, a beleza plástica e a qualidade impressionam o público que, a cada ano, lota os espetáculos.
OBS: in NOS BASTIDORES DA POESIA ( livro inédito,
reunião de textos críticos e outros temas de Maria de Lourdes Hortas)
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